Wesley foi cortado, Vanderson foi chamado, e a Seleção Brasileira segue tratando amistosos contra Austrália e Índia como se fossem finais de Copa do Mundo. O treinador italiano, contratado a peso de ouro por uma federação que vive de repasses, patrocínios estatais disfarçados e da complacência de uma imprensa esportiva domesticada, decidiu que o lateral do Monaco merece a vaga. Ótimo. A pergunta que ninguém faz é mais rasteira: por que precisamos gastar passagem, diária, hotel cinco estrelas e comissão técnica inflada para enfrentar seleções que, no ranking honesto, mal encheriam um estádio da Série C?
A CBF opera há décadas com a lógica do cartório medieval. Cobra pedágio de todo mundo que quer jogar, arbitrar, transmitir ou sonhar em vestir a camisa amarela, e devolve à sociedade um espetáculo cada vez mais burocrático, cada vez mais caro, cada vez menos brasileiro. Convocar Vanderson ou Wesley, no fundo, é rearranjar cadeiras no salão nobre enquanto o porão pega fogo. A base apodrece, o clube formador não recebe quase nada pelo jogador que revelou, e o lateral titular passa a ser aquele que o empresário certo empurrou para o ouvido certo na hora certa.
Vale reparar no detalhe que a manchete esconde. Um técnico estrangeiro, remunerado em euro, escolhendo entre dois brasileiros que atuam na Europa para enfrentar dois adversários que estarão na Ásia e na Oceania. A seleção nacional virou um consórcio itinerante de talentos exportados, gerido por consultoria importada, financiado por uma estrutura que se alimenta do fanatismo do torcedor comum. O nacionalismo esportivo, essa relíquia romântica, hoje serve apenas para justificar orçamento. Se o critério fosse mesmo técnico, alguém explicaria por que o mesmo critério nunca se aplica à gestão, à transparência, aos contratos de patrocínio ou ao destino do dinheiro da televisão.
Há uma lição antiga que os cartolas fingem desconhecer. Quando uma instituição precisa contratar mercenários caros para simular competência, é porque a competência interna foi asfixiada por décadas de acomodação. O Brasil, celeiro histórico de laterais que o mundo inteiro copiou, agora precisa de um técnico italiano para escolher entre dois nomes que ninguém do bairro conhece. Não é fatalidade, é consequência. Uma federação que trata jogador como ativo financeiro e torcedor como consumidor cativo colhe exatamente isso: convocações que parecem apostas de fantasy game, feitas por quem nunca precisou explicar a ninguém de onde vem o dinheiro que paga a conta.
Austrália e Índia, no fim, são o palco perfeito para essa comédia. Ninguém vai lembrar do placar em três meses, ninguém vai cobrar rendimento, ninguém vai auditar quanto custou a operação. O amistoso existe porque gera receita de televisão, expõe patrocinadores em mercados que a CBF quer explorar, e mantém a máquina girando. Wesley ou Vanderson, tanto faz. O que importa é que a engrenagem continue produzindo faturamento para os mesmos de sempre, enquanto o pagador involuntário, o torcedor que compra a camisa a trezentos reais e assina o pacote de canais, segue achando que participa de algo maior do que um esquema muito bem azeitado.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.