A Westinghouse Electric quer voltar ao pregão americano com preço de tabela acima de US$ 50 bilhões, e os bancos de investimento já organizam o roadshow com a solenidade de quem apresenta uma relíquia sagrada. A tese é a moda do momento: a inteligência artificial consome eletricidade como pinguço consome cachaça, os data centers precisam de base load estável, e a energia nuclear, coitada, seria a virgem redescoberta depois de décadas de ostracismo verde. Compre agora, antes que suba. É a narrativa. O que não está no folheto é a biografia da noiva.
Esta é a mesma Westinghouse que faliu em 2017 arrastando a Toshiba junto, depois de queimar bilhões nos projetos Vogtle e V.C. Summer, onde reatores AP1000 orçados em oito anos viraram obras de quinze, orçamentos dobraram, triplicaram, e o contribuinte da Geórgia e da Carolina do Sul acordou pagando tarifa mais alta para financiar o desastre de engenharia de uma empresa privada. O reator de Summer nunca ficou pronto. Foi abandonado depois de nove bilhões de dólares torrados. Ninguém foi preso, ninguém devolveu nada, e agora os mesmos ativos, reembalados, voltam à bolsa pedindo cinquenta bilhões pela cara.
Siga o dinheiro e a fábula desmonta rápido. A Brookfield e a Cameco compraram a empresa em 2023 por menos de oito bilhões de dólares em equity. Três anos depois, com zero reator novo entregue e o mesmo modelo AP1000 no catálogo, o ativo valeria seis vezes mais. O que mudou? Não foi produtividade, não foi inovação, não foi contrato firme. Mudou a narrativa geopolítica, mudaram os créditos fiscais generosos do Inflation Reduction Act, mudou a promessa de que Washington vai garantir empréstimos, cobrir seguros, subsidiar combustível enriquecido e absorver o passivo de rejeitos por prazo indeterminado. O valuation não é da empresa, é do contribuinte americano embutido dentro dela.
Existe um princípio simples que a euforia costuma esquecer: se um negócio depende de subsídio estatal, garantia federal e isenção de responsabilidade civil para fechar a conta, ele não é um negócio, é um arranjo político disfarçado de empresa. A energia nuclear pode até ser tecnicamente boa, tecnicamente limpa, tecnicamente densa, ninguém está discutindo termodinâmica aqui. O que se discute é por que, sessenta anos depois de Eisenhower prometer eletricidade barata demais para ser medida, o setor continua sendo o único que precisa do Congresso para existir. A resposta honesta é que o custo real, sem o subsídio, sem o Price-Anderson Act limitando responsabilidade em caso de acidente, sem a garantia de empréstimo do Departamento de Energia, faz o kilowatt-hora sair pela metade do orçamento da NASA.
E aí entra o teatro do IPO. Os fundos vão comprar porque precisam de exposição à tese da IA. Os analistas vão recomendar porque o banco que assessora também coloca papel na mesa. A imprensa financeira vai celebrar como renascimento. E daqui a cinco ou sete anos, quando o primeiro contrato com hyperscaler atrasar, quando o primeiro reator small modular custar o triplo do prometido, quando a garantia federal for acionada, os mesmos jornalistas vão escrever peças comovidas sobre a necessidade de nova ajuda emergencial para preservar a soberania energética nacional. É o roteiro. Já foi encenado com bancos em 2008, com montadoras em 2009, com companhias aéreas em 2020. Muda o figurino, o enredo é idêntico.
O leitor atento não precisa ser contra energia nuclear para desconfiar. Basta lembrar que toda vez que Wall Street precifica sonho e Washington precifica risco, quem paga a diferença mora na conta de luz e no imposto de renda do sujeito comum. Cinquenta bilhões de dólares é o preço que se pede quando se acredita que a próxima crise da empresa será novamente resolvida com dinheiro alheio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.