A WisdomTree anunciou recorde histórico de US$ 174 bilhões em ativos sob gestão, com US$ 12 bilhões captados só em 2026, e o mercado bateu palma como criança em festa de aniversário. Olha, o número é bonito, mas ninguém está fazendo a pergunta óbvia: o que exatamente está sendo comprado quando um investidor despeja bilhões em ETFs? Está comprando produtividade real, empresas que geram valor, tecnologia que muda a vida das pessoas? Ou está comprando um cesto de ativos inflados por uma década e meia de dinheiro artificialmente barato, onde a régua que mede o retorno é a mesma régua que o Federal Reserve encolhe e estica conforme a política do momento?
A indústria de ETFs cresceu porque a gestão ativa fracassou em bater o índice, e a gestão ativa fracassou em bater o índice porque o índice virou reflexo direto da liquidez injetada pelos bancos centrais desde 2008. Quer dizer, quando o dinheiro sai da torneira de graça, tudo sobe junto, e o gestor que estuda balanço, lê nota de rodapé e tenta escolher a boa empresa perde para o robô que compra tudo indistintamente. Não é mérito do ETF, é subproduto da inflação de ativos. A WisdomTree, a BlackRock, a Vanguard, todas essas gigantes são fenômenos secundários de uma anomalia monetária primária.
Me diz uma coisa: por que um brasileiro deveria comemorar que mais US$ 12 bilhões foram esterilizados dentro da máquina de indexação americana? Porque a narrativa vendida é a da democratização, do acesso, da diversificação barata. Só que essa democratização tem um preço invisível, e o preço é que o capital deixa de exercer sua função de descoberta, deixa de premiar o empreendedor competente e punir o incompetente, e vira commodity anônima navegando na maré do banco central. O investidor virou passageiro, e o piloto se chama política monetária.
Sigam o dinheiro e verão o mesmo padrão de sempre. As grandes gestoras cobram taxa pequena por ativo, mas quando você multiplica taxa pequena por US$ 174 bilhões, o resultado é receita gorda e recorrente, sem risco de performance, sem obrigação de acertar. É o modelo perfeito: você não precisa ter razão, só precisa ter escala. E a escala vem de onde? Vem dos fundos de pensão americanos, dos planos 401k, da regulação que empurra o poupador comum para dentro desse funil. O Estado americano, via incentivo fiscal e obrigação previdenciária, é o maior vendedor de ETFs do planeta, e ninguém percebe porque o vendedor não aparece na etiqueta.
Enquanto a festa da indexação continua, o mundo real vai se descolando dos preços de tela. Endividamento soberano americano no maior patamar da história, déficit fiscal permanente, guerra comercial com a China, tensão geopolítica no Pacífico, e o índice sobe porque a liquidez tem que ir para algum lugar. É a mesma dinâmica dos anos 20 do século passado, é a mesma euforia do Japão nos anos 80, é o mesmo esquema de sempre: quando o dinheiro deixa de ser escasso, tudo vira caro, e caro é a antessala do colapso.
Comemorar recorde de ativos sob gestão em 2026 é comemorar o tamanho da bolha, não a saúde do mercado. A conta vai chegar, e quando chegar, o cotista do ETF vai descobrir que diversificação sem discernimento é só concentração disfarçada de sofisticação.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.