Xi Jinping apareceu diante do Brics como quem oferece azeite santo, defendendo o papel do bloco como pacificador do Oriente Médio e estendendo a mão para a Índia num gesto de aproximação que teria comovido qualquer diplomata desavisado. Só que Pequim não move um dedo por altruísmo, e quem entende o funcionamento real da coisa sabe que cada frase pronunciada ali carrega três camadas de interesse comercial, geopolítico e ideológico escondidas debaixo do tapete de veludo vermelho. A China vende paz do mesmo jeito que vende painel solar, granel e via férrea, com margem embutida e servidão no rodapé do contrato.

Quando um regime autoritário se propõe a ser fiador de estabilidade global, o observador prudente deveria conferir os bolsos antes de aplaudir. O Brics não é uma orquestra de nações soberanas em busca do bem comum, é um instrumento cuidadosamente afinado para deslocar a arquitetura financeira que sustenta o dólar, o comércio ocidental e o mínimo de contrapesos institucionais que ainda restaram no século vinte e um. Cada cúpula desse arranjo é menos sobre resolver conflitos e mais sobre construir dependências, e a mediação no Oriente Médio é apenas o pretexto elegante para inserir Pequim como árbitro onde antes Washington ditava as regras.

A aproximação com a Índia é o capítulo mais saboroso dessa novela, porque envolve dois vizinhos que trocaram tiros no Himalaia há poucos anos e cujas fronteiras seguem eriçadas de tropas. Modi não é ingênuo, sabe exatamente o que Xi quer, e joga o jogo porque enxerga espaço para arrancar concessões enquanto o Ocidente se distrai com pautas identitárias e cúpulas climáticas. Só que a Índia democrática e a China totalitária não têm afinidade civilizacional nenhuma, o que temos ali é casamento por conveniência com data de divórcio marcada, e o convidado de honra chamado Brasil senta na cabeceira sem entender bem se está no altar ou no cardápio.

O Itamaraty, sempre pronto a bater palma para qualquer coreografia antiamericana, embarca nessa dança sem perceber que a fatura chega em yuan e a soberania se paga em silêncio diplomático. Enquanto isso, o produtor rural brasileiro que abastece a mesa chinesa não recebe representação política proporcional ao peso que carrega, e o contribuinte financia embaixadas, viagens e cúpulas cujo retorno concreto para sua vida é rigorosamente zero. Siga o dinheiro e você encontrará bancos estatais chineses financiando infraestrutura em troca de portos, minerais e votos em foros internacionais, num arranjo que os antigos chamariam de tributo e os modernos chamam de parceria estratégica.

A paz que Pequim oferece é a paz dos cemitérios organizados, aquela em que ninguém protesta porque ninguém pode protestar, em que o comércio flui porque a política foi anestesiada, em que o consenso reina porque a divergência foi criminalizada. Um regime que tritura uigures em campos de trabalho, sufoca Hong Kong e ameaça Taiwan diariamente não tem autoridade moral para mediar conflito nenhum, tem apenas capacidade financeira para comprar aparência de autoridade. E o mundo, cansado, distraído e ideologicamente confuso, finge que não percebe a diferença.

No fim, a foto oficial do Brics sorrindo em uníssono é a cortina que esconde o teatro real, onde Xi negocia com Modi por baixo da mesa, ambos observam o Brasil com olhar de quem calcula frete, e o cidadão comum de qualquer um desses países paga a conta sem jamais ter sido consultado. Quando o lobo se veste de pastor e convida as ovelhas para discutir segurança do rebanho, a única pergunta relevante é quem vai jantar quem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.