Xi Jinping abriu a cúpula do BRICS com um discurso solene defendendo que a inteligência artificial deve ser um bem comum da humanidade, de código aberto, acessível ao Sul Global, longe do "monopólio tecnológico" dos Estados Unidos. Palmas de praxe, aceno de Lula, sorriso de Putin por videoconferência. E ninguém, absolutamente ninguém no plenário, teve a coragem mínima de perguntar por que o campeão mundial da abertura digital é o mesmo sujeito que mantém uma muralha eletrônica bloqueando cerca de um bilhão e meio de cidadãos de acessar YouTube, Google, Wikipedia, Twitter, Facebook, ChatGPT e qualquer coisa que cheire a informação não filtrada pelo Partido Comunista. Chama-se isso, na tradição milenar da retórica política, de cinismo industrial.
O truque é velho e sempre funciona: quando você está perdendo uma corrida tecnológica, redefine as regras da corrida. Os americanos gastaram centenas de bilhões em chips avançados, treinamento de modelos de fronteira, infraestrutura de nuvem, e agora dominam o topo da cadeia. Pequim, atrasada em silício por conta de sanções que ela mesma provocou, descobriu de repente uma paixão pelo "open source" que jamais teve quando se tratava de compartilhar código de reconhecimento facial usado em Xinjiang. Abertura seletiva, portanto. Aberto quando convém geopoliticamente, fechado quando serve para vigiar uigures, monitorar dissidentes e classificar cidadãos por pontuação social. Não é filosofia, é tática.
Siga o dinheiro e o roteiro fica claro. Quem se beneficia de uma "IA aberta" liderada por Pequim são as gigantes chinesas subsidiadas pelo Estado, Alibaba, Baidu, Huawei, DeepSeek, empresas que respiram graças ao crédito dirigido dos bancos estatais e que, curiosamente, entregam ao Partido cada linha de código sensível quando solicitado. Empurrar modelos chineses "gratuitos" para o Sul Global é a mesma jogada da Rota da Seda digital: você aceita o presente hoje, e amanhã descobre que sua infraestrutura crítica roda em cima de uma dependência tecnológica sob controle de Pequim. Cavalo de Troia com selo de generosidade, embrulhado em papel de multilateralismo.
O mais grotesco é o silêncio dos parceiros do BRICS, especialmente do Brasil, cuja diplomacia deveria representar uma nação que, ao menos formalmente, ainda se diz democrática. Sentar ao lado do arquiteto do maior sistema de censura digital da história e assentir com a cabeça enquanto ele fala em "compartilhar tecnologia com países em desenvolvimento" é o tipo de humilhação que nenhum discurso de política externa autônoma consegue disfarçar. O Itamaraty, que já foi escola de estadistas, virou plateia de números de mágica geopolítica onde o coelho sai da cartola sempre segurando uma bandeira vermelha.
Há ainda a questão que ninguém quer tocar: código aberto de verdade exige rule of law, propriedade intelectual respeitada, tribunais independentes, imprensa que possa auditar. Nenhuma dessas coisas existe na China. Um repositório "aberto" hospedado em servidores chineses está aberto até o dia em que o Partido decidir que não está mais, e nesse dia não haverá juiz, jornalista ou parlamentar para reclamar. Chamar isso de abertura é o mesmo que chamar uma jaula de janela panorâmica. A palavra existe, o significado foi sequestrado.
No fundo, a cena da cúpula é a fotografia perfeita da nossa era: regimes autoritários dominando o vocabulário da liberdade enquanto democracias envergonhadas gaguejam pedindo licença para existir. A tecnologia mudou, o roteiro é o mesmo de sempre, tirano fantasiado de libertador vendendo corrente pintada de dourado para quem se recusa a olhar. E o Sul Global, sedento por qualquer coisa que soe como alternativa ao Ocidente, compra o pacote sem ler a letra miúda. Quem financia o próprio coleiro costuma achar bonita a coleira até o dia em que puxam.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.