A notícia chega embrulhada em papel de presente corporativo, com aquele vocabulário técnico que existe justamente para anestesiar quem lê. A XXIX Metal concluiu a emissão de ações para exercer a opção sobre a propriedade Pluto, e a manchete quer que você acredite que isso é uma conquista. Traduzindo do dialeto de assessoria de imprensa para o português dos mortais, a empresa imprimiu papel novo, entregou esse papel para quem quis assinar o cheque, e usou o dinheiro para pagar pelo direito de talvez, eventualmente, um dia, tirar alguma coisa do chão em uma jazida chamada Pluto. Note o nome: Pluto. Nem planeta é mais.
Aqui está o truque mais antigo do mercado de capitais aplicado à mineração júnior, um setor que sobrevive há décadas vendendo sonho geológico com desconto no varejo. Uma companhia sem receita relevante, sem produção madura, sem fluxo de caixa que justifique um empréstimo bancário decente, faz o que sempre faz quando precisa de dinheiro, emite ações. Cada ação nova que entra no mercado corta um pedaço da participação de quem já estava lá. O acionista que comprou na semana passada acordou hoje segurando uma fatia menor da mesma empresa, e ainda foi obrigado a bater palma porque o comunicado usa a palavra estratégico três vezes no primeiro parágrafo.
Siga o dinheiro, e a coisa fica interessante. Quem subscreveu essa emissão? A que preço? Com que desconto em relação à cotação de mercado? Houve colocação privada para fundos amigos, houve investidor âncora com condições especiais, houve corretora estruturando o negócio e cobrando taxa gorda pelo trabalho? Essas perguntas o comunicado não responde, e não responde porque a resposta desmonta o enredo heroico. A opção sobre Pluto foi paga com diluição alheia, o custo real da operação está pulverizado entre milhares de pequenos investidores que nunca leram um relatório NI 43 101, e o consultor jurídico, o banco de investimento e o geólogo consultor cobraram em dinheiro, não em ação. O risco fica com o minoritário. A comissão vai para quem estruturou.
Existe uma diferença crucial entre alocar capital com base em preços reais formados pela negociação voluntária de milhares de pessoas informadas, e alocar capital com base em prospecto de mineradora júnior que promete a lua e entrega um pedaço de rocha em um lugar chamado Pluto. O primeiro é mercado. O segundo é aposta em cassino com regra escrita pelo dono da casa. Não que apostar em mineração seja imoral, longe disso, é uma das atividades mais antigas e legítimas do capitalismo. O problema é confundir aposta legítima com investimento previsível, e é essa confusão que a linguagem corporativa cultiva de propósito. Quem escreve o comunicado sabe exatamente o que está fazendo quando substitui a palavra aposta por avanço estratégico.
E tem a parte que ninguém mostra. Para cada dólar que entrou na XXIX Metal via essa emissão, existe um dólar que deixou de ir para outra empresa, outra ideia, outro projeto que talvez fosse melhor. O capital não brota do chão, ele foi retirado de um destino alternativo, e esse destino alternativo virou fantasma estatístico, nunca aparece no gráfico, nunca é mencionado no relatório do trimestre. A grandeza do sistema de preços é permitir que essa comparação aconteça de forma descentralizada, com milhões de decisões cruzando informações que nenhum burocrata regulatório jamais teria condição de reunir. A miséria do processo é quando a companhia captura essa maquinaria e a usa para financiar exercício de opção sobre ativo que talvez nem exista comercialmente.
No fim, sobra o de sempre. A XXIX Metal ganhou o direito sobre Pluto, os intermediários ganharam suas comissões, a diretoria ganhou mais um trimestre de sobrevida e uma linha bonita no currículo, e o acionista minoritário ganhou uma participação menor em um projeto que continua sendo, tecnicamente, um buraco no chão com esperança em cima. Se der certo, e uma vez a cada dez dá, contam a história como visão empreendedora. Se der errado, e nove vezes em dez dá, a culpa vai ser do preço da commodity, da geopolítica, do câmbio, do azar. Nunca da diluição alegre que financiou a festa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.