Yduqs e Afya, dois colossos do ensino superior privado com foco pesado em medicina, anunciam que vão combinar operações. A imprensa econômica trata o assunto como notícia de página de negócios, sinergia, ganho de escala, criação de valor ao acionista, o vocabulário de sempre. Só que ninguém pergunta a pergunta óbvia: por que diabos duas empresas conseguiram acumular tanto poder de mercado num setor em que o insumo mais escasso, a vaga de medicina, é distribuído por decreto do Ministério da Educação? A resposta está na origem do lucro, e a origem do lucro nunca esteve no mercado livre.
Vaga de medicina no Brasil não brota de concorrência. Brota de canetada. O governo decide quantas escolas podem abrir, onde podem abrir, quantos alunos podem entrar por ano, e cobra pedágio institucional em cada etapa. Quem ganhou autorização nos últimos vinte anos, quando o teto foi aberto e depois fechado, herdou o equivalente a uma licença de táxi em Manhattan nos anos 80. Ativo escasso por decreto, valor de mercado inflado por ausência de concorrentes, mensalidade que passa dos quinze mil reais mensais porque simplesmente não há alternativa. Isso não é capitalismo. É concessão pública disfarçada de empresa listada em bolsa.
E como o aluno paga uma mensalidade dessas? Não paga. Ou paga em parte. O resto vem do FIES, do Prouni, de financiamento estudantil bancado com dinheiro do contribuinte que nunca vai pisar naquela sala de aula. Quer dizer, o modelo é elegante: o governo restringe a oferta para inflar o preço, o mesmo governo financia o aluno para poder pagar o preço inflado, e o acionista da empresa listada embolsa a diferença. Todo mundo ganha, menos quem paga imposto, que é quem banca a festa inteira sem ser convidado. Olha, se um empresário privado tentasse esse arranjo sem o padrinho estatal, iria preso por cartel em duas semanas.
A fusão agora consolida o que já era um oligopólio de fato num oligopólio de direito. Dois grupos que juntos controlam uma fatia gigantesca das vagas mais lucrativas do país passam a atuar como um só, e o regulador vai olhar para isso e provavelmente aprovar, porque o regulador é o mesmo que criou a escassez que produziu o valor que está sendo consolidado. É a captura regulatória em ciclo fechado, a serpente comendo o próprio rabo enquanto o CADE assina o protocolo com sorriso institucional. O consumidor final, o futuro médico e o paciente que vai ser atendido por ele, entram na conta depois, quando já é tarde.
Há uma parte que os relatórios de research não vão escrever, mas é a parte que importa. Quando o Estado transforma diploma em ativo escasso e depois financia a compra desse ativo com dinheiro público, ele não está democratizando acesso, está criando um mercado cativo que se autoalimenta. A empresa listada vira revendedora de escassez fabricada. O aluno vira devedor vitalício de um financiamento que só existe porque a mensalidade só existe naquele patamar porque a vaga só existe em número controlado. Retire qualquer uma das três pernas e o esquema desaba. Ninguém quer retirar, porque todo mundo que decide também lucra.
O que se vê é a manchete de fusão bilionária, os múltiplos, o ganho de sinergia, o roadshow bem articulado. O que não se vê é a montanha de dinheiro público que passou por dentro dessas empresas nos últimos quinze anos para chegar até aqui, o jovem endividado que vai carregar aquele FIES até os quarenta anos, o médico formado em turma inflada de trezentos alunos sem residência garantida, o interior sem médico algum porque as vagas foram autorizadas em capital onde o mercado paga melhor. Fusão de gigantes do ensino não é vitória do capitalismo brasileiro. É a fatura de um capitalismo de compadrio que enfim resolveu se organizar em condomínio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.