A cena merece ser gravada. Executivos da Zevra Therapeutics subindo ao palco da conferência de saúde do Morgan Stanley, em Nova York, para explicar aos investidores que o mercado de doenças ultrarraras é bem maior do que as próprias projeções indicavam. O medicamento estrela da casa, o Miplyffa, tratamento para a doença de Niemann-Pick tipo C, teria potencial de pacientes muito acima do que a companhia originalmente contava. Tradução para quem não fala a língua dos banqueiros: a ação subiu, o CEO sorriu, e alguém, em algum lugar, vai pagar por isso.
Olha, o mercado de doenças raras nos Estados Unidos é uma das criações regulatórias mais engenhosas do último meio século. Nasceu do Orphan Drug Act de 1983, aquela lei que, com a melhor das intenções, criou incentivos fiscais gordos, sete anos de exclusividade de mercado garantida por decreto e uma fila expressa na agência reguladora para qualquer laboratório disposto a desenvolver remédio para menos de duzentos mil pacientes. O resultado? Em 1983, existiam trinta e oito medicamentos órfãos. Hoje passam de seiscentos. E os preços? Miplyffa custa em torno de quatrocentos mil dólares por paciente por ano. Não é remédio, é hipoteca vitalícia.
Quer dizer, ninguém questiona que doenças raras precisam de tratamento e que pesquisa custa caro. O problema é outro. Quando o governo cria uma reserva de mercado protegida da concorrência, com preços blindados por monopólio legal e financiada em última instância pelo seguro público ou por planos de saúde repassando o custo ao consumidor, o que se forma não é livre mercado, é feudo farmacêutico. O incentivo deixa de ser curar o paciente e passa a ser redefinir a doença para caber mais gente na conta. Foi exatamente o que a Zevra anunciou ao Morgan Stanley: o mercado é maior. Não porque descobriram novos pacientes na floresta, mas porque revisaram a metodologia. E o mercado bateu palma porque entende o recado.
Me diz uma coisa: quando foi que alguém parou para perguntar quem paga a festa? A resposta está espalhada, invisível, distribuída em milhões de contribuintes americanos que financiam o Medicare, em prêmios de seguro que sobem todos os anos sem explicação clara, em pacientes com doenças comuns que descobrem que seu plano cortou cobertura porque o orçamento foi consumido por três casos ultrarraros a meio milhão cada. É a velha história da janela quebrada, só que em versão farmacêutica. O que se vê é a ação da Zevra decolando. O que não se vê é o aposentado do Kansas que teve o reembolso do inalador negado.
E aqui vale seguir o dinheiro com paciência de detetive. O Orphan Drug Act foi lobado por associações de pacientes genuínas, mas foi capitalizado por escritórios de advocacia especializados, por consultorias regulatórias que cobram fortunas para redigir os pedidos de designação órfã, por fundos de investimento que compram laboratórios pequenos justamente pelo pipeline de moléculas com esse status. É todo um ecossistema de rent-seeking construído sobre a boa intenção original. E quando alguém sugere reformar, o coro previsível se levanta: você é contra os doentes? Não. Sou contra o arranjo que faz do doente refém, do contribuinte otário, e do laboratório milionário.
O anúncio da Zevra é sintomático de uma economia doente. Não a doença de Niemann-Pick, essa é tragédia genética. A doença é a crença ingênua de que preço protegido por lei, monopólio garantido por decreto e demanda inflada por metodologia revisada compõem alguma coisa parecida com mercado. Não compõem. Compõem privilégio disfarçado de inovação, pilhagem legalizada com jaleco branco, e um teatro em que Wall Street aplaude e o pagador da conta nem sabe que entrou no elenco.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.