Chegamos ao ponto em que o Ministério da Fazenda precisa explicar, com a cara mais séria do mundo, que a meta fiscal de 2026 será descumprida por motivos alheios à vontade do governo. É sempre assim. A chuva, a seca, o Congresso, o Supremo, os juros americanos, o preço do petróleo, a conjuntura, a herança maldita, a variante nova do vírus do pessimismo. Qualquer coisa serve, menos a explicação óbvia: o governo gasta mais do que arrecada porque quer, porque lhe convém, e porque há uma fila organizada de beneficiários que precisam ser servidos antes que a próxima eleição chegue.

O arcabouço fiscal foi vendido em 2023 como a grande âncora da responsabilidade. Um nome sofisticado, uma sigla nova, uma planilha bonita, gráficos em tons pastéis. O mercado aplaudiu educadamente, os analistas de banco escreveram relatórios elogiosos, e a imprensa econômica tratou o projeto com a reverência que normalmente se reserva a dogmas religiosos. Três anos depois, a meta virou piada interna em Brasília. O próprio autor do texto já admite, entre uma reunião e outra, que os números não fecham. Claro que não fecham. Nunca foram feitos para fechar. Foram feitos para dar tempo.

Siga o dinheiro e o enredo se esclarece. O Tesouro emite dívida a taxas reais absurdas, de quase sete por cento ao ano. Quem compra essa dívida? Os grandes bancos, os fundos de pensão dos servidores, a BlackRock da vida e os conglomerados financeiros que, curiosamente, são os mesmos que financiam campanhas, patrocinam think tanks fiscalistas e pagam salários de economistas que aparecem no jornal pedindo mais austeridade para o andar de baixo. É um arranjo genial. O governo gasta, os bancos lucram com a dívida, o pobre paga pela inflação e pelos impostos, e todos concordam que o problema é o Bolsa Família custar caro demais.

Há duzentos anos, quando a França napoleônica quebrou pela centésima vez, um ministro astuto inventou um truque que entrou para a história silenciosa das finanças públicas: trocar dívida velha por dívida nova com prazos mais longos e chamar isso de consolidação. O povo, que não entende de planilha, achou que o problema tinha sido resolvido. O problema, claro, só tinha sido empurrado para os netos. O arcabouço é a versão tupiniquim do mesmo truque, só que sem a elegância francesa e com a desvantagem adicional de vir acompanhado de uma carga tributária que já engole quase um terço de tudo que se produz neste país.

Enquanto isso, o circo da reforma tributária continua rodando. Anunciam como se fosse simplificação, mas ninguém que lê o texto acredita nisso. O que houve foi a criação de um imposto sobre valor agregado com alíquota padrão estimada em torno de vinte e oito por cento, a maior do planeta, com regimes especiais para setores privilegiados que souberam chegar na hora certa ao gabinete certo com o cheque certo. O agronegócio ganhou seu desconto. O setor financeiro ganhou o dele. A indústria automobilística, sempre ela, ganhou o seu. O comerciante de bairro, o dono de padaria, o prestador de serviço autônomo, esses pagarão a conta integral, porque não têm lobby, não têm jato, não têm assento em comissão parlamentar.

O mais fascinante é observar a imprensa econômica nesse processo. Os mesmos colunistas que, durante anos, rasgaram sedas para o teto de gastos anterior, agora rasgam sedas para o arcabouço. Quando o arcabouço for substituído por outra invenção semântica em 2027 ou 2028, rasgarão sedas para ela também. Há uma função sociológica nisso, parecida com a dos sacerdotes das antigas cidades mesopotâmicas que legitimavam cada novo rei garantindo que os deuses aprovavam a sucessão. O deus moderno se chama credibilidade junto ao mercado, e seus sacerdotes são pagos em dólar, com bônus atrelados ao desempenho dos mesmos papéis de dívida pública que eles defendem editorialmente.

No meio disso tudo, o cidadão comum assiste à gasolina subir, ao aluguel subir, ao plano de saúde subir, ao supermercado subir, e ouve do Palácio que a inflação está sob controle porque o índice oficial ficou em cinco e meio por cento anualizados. Sob controle de quem, exatamente? Porque no bolso dele, que não compra commodities em lote no atacado, a sensação é de que o dinheiro evapora antes mesmo de entrar na conta. É a velha mágica da estatística oficial, aquela em que se mede o tamanho do cadáver com uma régua de borracha para concluir que o defunto, afinal, está até mais alto do que antes.

O Brasil não está quebrado por acidente. Está quebrado por projeto, por método, por conveniência de quem lucra com a quebradeira. E enquanto houver quem continue acreditando que o próximo arcabouço, o próximo pacote, a próxima reforma, a próxima eleição resolverá o que apenas a coragem de dizer não a esse arranjo resolveria, continuaremos todos, disciplinadamente, financiando o jantar de quem nos jantou.

A análise e opinião são do O Algoz.