Há algo de profundamente cômico, quase litúrgico, na maneira como o brasileiro aceita o ritual quadrienal do arrocho disfarçado de bondade. Em 2026, o orçamento da União beira o indecente, a dívida bruta ultrapassa patamares que há dez anos teriam derrubado ministros, e o discurso oficial permanece o mesmo de sempre, recitado com a cadência de um pregador de feira que vende remédio para tudo e cura coisa nenhuma. O governo anuncia "programas sociais robustos", o Congresso carimba emendas opacas, e o Banco Central, acuado, observa a inflação voltar pela porta dos fundos enquanto juros reais estrangulam qualquer pretensão de investimento privado. O teatro é perfeito, o figurino impecável, e a plateia continua pagando o ingresso sem exigir ao menos o enredo.

Siga o dinheiro e você entenderá tudo. O Tesouro Nacional emite dívida a rodo, o mercado engole porque não tem escolha, os bancos intermediam com margens que fariam corar um agiota florentino do Quattrocento, e o resultado líquido é um país onde o cidadão que poupa é tratado como otário e o que consome fiado recebe tapinha nas costas. Enquanto isso, a imprensa econômica debate se o "arcabouço fiscal" tem ou não credibilidade, como se credibilidade fosse uma palavra mágica que se invoca sem lastro. O arcabouço virou fantasia de carnaval fora de época, e os responsáveis por ele sabem que sabem, mas contam com sua distração.

O mais curioso é observar a turma da "justiça social" subitamente convertida em defensora intransigente dos rentistas. Quanto maior o déficit, maior o prêmio pago ao detentor de títulos públicos, e quem detém esses títulos não é o trabalhador de Parelheiros nem o pequeno comerciante de Teresina. A estrutura é elegante em sua perversidade: arrecada regressivamente, redistribui para baixo em migalhas televisionadas, e transfere para cima em juros bilionários silenciosos. É o que os antigos chamariam de tributo ao senhor feudal, só que agora com CPF, CNPJ e certificado digital. O camponês medieval ao menos sabia o nome do barão que o espoliava.

O BNDES, velha máquina de privatizar lucros e socializar prejuízos, volta a protagonizar manchetes com "financiamentos estratégicos" cujos critérios lembram os de uma república bananeira em dia de aniversário do caudilho. Projetos tocados por contratados amigos, avaliações de risco fabricadas em planilhas condescendentes, juros subsidiados por todos para enriquecer poucos. O nome técnico disso é captura regulatória; o nome popular deveria ser banditismo institucional. Mas falar assim ofende as boas almas dos seminários sobre "desenvolvimento inclusivo", onde canapés caros são servidos com dinheiro que, em última instância, saiu da padaria do seu bairro.

Enquanto o circo roda em Brasília, a classe produtiva real sangra em silêncio. O pequeno empresário, esse anti herói que acorda às cinco para pagar quinze impostos diferentes até chegar ao lucro, descobre que precisa agora emitir nota para operações de Pix, que a Receita quer rastrear o centavo do troco do sushi, e que o mesmo Estado que não consegue prender assaltante de banco tem sofisticação tecnológica para monitorar a mesada da sobrinha. A assimetria é explícita, e é por design. Um Leviatã que não sabe proteger a rua sabe exatamente como vasculhar a carteira. Quem estudou História sabe que impérios em decadência sempre apertam o cerco fiscal antes de desabar, porque é o último reflexo do animal ferido.

A mídia corporativa, por seu lado, cumpre com zelo seu papel de relações públicas do poder. Manchetes que "contextualizam" descalabros, editoriais que lamentam "excessos" sem jamais nomear os excessivos, entrevistas em que jornalistas outrora combativos viraram estagiários do gabinete. O dinheiro das verbas publicitárias oficiais não é distribuído por acaso, e o resultado aparece na pauta, na escolha de fontes, na complacência com o inaceitável. Quem paga a orquestra escolhe a música, e a orquestra nacional tem tocado bolero enquanto o prédio pega fogo. Há exceções heroicas, claro, mas são exatamente isso, exceções, e tendem a operar em plataformas pequenas, financiadas por assinantes irritados o bastante para ainda acreditar que palavras importam.

Do outro lado do tabuleiro, a oposição de ocasião encena indignação seletiva. Quando estava no poder, tolerava a mesma gastança com outro verniz ideológico; agora, fingindo virtude fiscal, prepara o retorno com promessas que seus próprios números contradizem. É o eterno revezamento dos mesmos em fantasias trocadas, o que os filósofos políticos chamariam de oligarquia camuflada de democracia, ou o que os velhos diagnosticadores da alma nacional identificariam como inversão sistemática dos valores: o vício celebrado como astúcia, a prudência ridicularizada como atraso, o furto chamado de política pública. A eleição de 2026 será disputada entre versões concorrentes da mesma fatura, e o eleitor escolherá o tamanho da lápide, não se haverá enterro.

Resta ao cidadão lúcido, esse exemplar em extinção, uma tarefa discreta e obstinada: proteger o que pode, educar quem consegue ouvir, desconfiar profissionalmente, e recusar a anestesia do espetáculo. Não haverá cavalaria vindo do horizonte, não há herói ensaiando entrada triunfal, não há instituição imaculada aguardando convocação. Há apenas a aritmética implacável, que sempre cobra no fim, com juros compostos e sem prorrogação. Quem achou que almoço grátis existia vai descobrir, no próximo balanço, que o prato estava envenenado e a conta vinha em nome dos filhos.

A análise e opinião são do O Algoz.