Existe um ritual televisivo que se repete a cada três meses como missa de sétimo dia. O ministro da Fazenda surge diante das câmeras, ajeita a gravata, e com a serenidade de quem acredita nas próprias mentiras anuncia que o arcabouço fiscal segue firme, que as metas serão cumpridas, que o mercado compreendeu. No dia seguinte, o dólar sobe, o juro futuro dispara e os economistas de plantão descobrem, escandalizados, que alguém mexeu novamente nas regras do jogo. É o equivalente macroeconômico do marido adúltero jurando fidelidade com batom na camisa. E o Brasil, pacientemente, finge acreditar.
Sigamos o dinheiro, que é o único caminho que não mente. A despesa obrigatória da União cresce a taxas superiores à receita há cinco anos consecutivos. O Tesouro emite títulos a taxas reais de dois dígitos para rolar uma dívida que já beira os oitenta e dois por cento do PIB. Cada ponto percentual de juro adicional significa algo entre trinta e quarenta bilhões de reais por ano transferidos dos impostos pagos pelo padeiro, pela costureira e pelo motoboy para a conta bancária de quem tem capital suficiente para comprar títulos públicos. Nunca houve na história deste país instrumento mais eficiente de concentração de renda do que a própria dívida que os ministros juram combater em nome dos pobres.
A matemática é humilhante na sua simplicidade. Quando um governo gasta mais do que arrecada, só existem três saídas possíveis, e todas custam o mesmo preço ao mesmo pagador. Ou aumenta impostos, e o produtivo sangra pela veia aberta. Ou emite dívida, e o produtivo sangra pela veia represada que estourará amanhã. Ou imprime moeda, e o produtivo sangra pela inflação, que é o imposto silencioso que o analfabeto econômico paga sem saber que está pagando. O governo atual combinou os três métodos numa alquimia perversa e chamou isso de justiça social. A eficácia retórica é tamanha que sindicalistas defendem juro alto achando que estão defendendo trabalhador.
No Império Romano do terceiro século, quando os imperadores descobriram que podiam raspar a prata das moedas para financiar circo, pão e legiões, começaram pela confiança de que ninguém perceberia. Perceberam. O comércio fugiu para o escambo, as províncias ricas se blindaram, e o que restou foi uma casta burocrática cada vez mais inchada vivendo de uma economia cada vez mais raquítica. A moeda envilecida precedeu o colapso político em pelo menos um século, tempo suficiente para que os contemporâneos do desastre jurassem que a economia estava aquecida e que os bárbaros eram parceiros comerciais. Qualquer semelhança não é coincidência, é pedagogia.
O espetáculo se completa com a cumplicidade do andar de cima. O mercado financeiro brasileiro, que em público reclama do gasto público, em privado adora. Adora porque vive dele. O banco que financia a folha do servidor, o fundo que compra o título do Tesouro, a consultoria que vende compliance regulatório ao BNDES, o escritório que litiga contra a Receita, todos mamam na mesma teta estatal enquanto escrevem artigos indignados sobre ajuste fiscal. O capitalismo de compadrio brasileiro não é um desvio do sistema, é o sistema. Quem reclama da farra é porque ainda não foi convidado para a festa, e quem é convidado aprende rapidamente a chamar a farra de política pública.
Enquanto isso, o contribuinte real, aquele que emite nota fiscal e paga Simples Nacional, assiste ao circo com a serenidade do boi que confia no vaqueiro. Acredita que a carga tributária de trinta e três por cento do PIB é uma lei da natureza, como a gravidade. Acredita que o salário líquido pequeno é culpa do patrão ganancioso, não do leão que mora no holerite. Acredita que os preços sobem porque o mercado é cruel, não porque a autoridade monetária imprimiu base monetária a taxas de dois dígitos durante a pandemia e agora precisa esterilizar o estoque com juros punitivos. A ignorância econômica do brasileiro médio não é um acidente cultural, é um projeto político construído com décadas de pedagogia estatal financiada pelo próprio imposto do ignorante.
Há um detalhe final que merece o bisturi. As isenções, subsídios e renúncias fiscais somadas ultrapassam hoje seiscentos bilhões de reais anuais, valor superior ao orçamento inteiro da saúde e da educação juntas. Essa massa de dinheiro não evapora, ela vai para algum lugar, e esse lugar tem CNPJ, endereço e lobista credenciado em Brasília. Quando o governo anuncia que vai cortar privilégios, observe atentamente quem aparece nos telejornais chorando. Não é o pobre, nunca é o pobre. É o setor industrial protegido, a montadora subsidiada, o agronegócio exportador com crédito camarada, o banco público com fundo garantidor. O pobre aparece apenas como justificativa retórica, como o menino de rua que o mendigo profissional usa para pedir esmola no sinal.
O arcabouço fiscal não vai quebrar amanhã porque farsas bem ensaiadas têm sobrevida longa, e os atores principais ainda têm interesse em manter o teatro de pé. Mas o preço da encenação já está sendo cobrado, silenciosamente, na padaria, no aluguel, no plano de saúde, na prestação do carro. Quando a conta final chegar, e ela sempre chega, os autores do desastre estarão em Miami escrevendo memórias, e o público pagará a entrada de um espetáculo que já terminou há muito tempo.
A análise e opinião são do O Algoz.