Há uma cena que se repete em Brasília com a regularidade de um rito pagão. Ministro sobe ao púlpito, exibe planilha colorida, anuncia que o arcabouço fiscal está sendo cumprido, e a claque de economistas contratados por bancos aplaude como se tivesse assistido ao milagre da multiplicação dos pães. O detalhe que ninguém comenta é que, para cumprir a meta, mudaram a meta. Para cumprir o teto, redefiniram o que conta como despesa. Para mostrar superávit primário, empurraram cem bilhões em precatórios para fora do orçamento, como quem varre a sujeira para debaixo do tapete persa da sala de visitas.
Siga o dinheiro, sempre. Em 2026, o Brasil torra mais de um trilhão e duzentos bilhões de reais só em juros da dívida pública. É mais do que o orçamento somado de saúde, educação e segurança. Pergunte a qualquer cidadão de bem para onde vai esse dinheiro e ele dirá, com voz embargada, que vai pagar aposentadoria de vovó. Mentira piedosa ensinada em cartilhas do MEC. Vai para o bolso de uma casta bem específica de detentores de títulos públicos, fundos de pensão politicamente conectados e bancos que compram papel do Tesouro a uma Selic de dois dígitos e revendem como se fossem mercadores de indulgências na véspera da Reforma.
O mais delicioso da engenharia é que a mesma classe que financia campanhas de esquerda e de direita, sem distinção, é a que lucra com cada alta da taxa básica. O país pode estar em chamas, a favela pode estar sem luz, o agricultor pode estar quebrando por conta do dólar, mas a mesa de renda fixa dos grandes bancos brinda com champanhe francês toda quarta-feira de Copom. Disseram ao povo que juro alto combate inflação. Esqueceram de avisar que o principal combustível da inflação, no Brasil, chama se gasto público indexado, e que juro alto apenas transfere renda de quem produz para quem especula. É o imposto invisível mais genial já inventado desde que certo imperador romano começou a misturar cobre na prata para financiar suas guerras na Germânia.
E o que o governo atual fez de diferente? Absolutamente nada, exceto trocar o nome das coisas. O teto de gastos virou arcabouço. O contingenciamento virou bloqueio. O calote virou reperfilamento. Os penduricalhos viraram verbas indenizatórias. A velha prática de jogar o problema para o próximo mandato foi rebatizada de responsabilidade fiscal estrutural de médio prazo. É a mesma sopa requentada servida em prato de porcelana chinesa, com a diferença de que agora o garçom usa terno Armani e cita relatórios do FMI enquanto derrama o caldo nas suas calças.
Observem o espetáculo grotesco do Desenrola, do Pé de Meia, do Vale Gás, dessa sopa de letrinhas de programas assistenciais criados para comprar votos com dinheiro que nem sequer existe no caixa. O Tesouro emite dívida, o Banco Central sobe juros para conter a inflação gerada pela dívida, os bancos compram a dívida, o Tesouro paga juros aos bancos, os bancos financiam as campanhas dos políticos que criam novos programas assistenciais, e assim girarmos a roda do hamster em ritmo de bumba meu boi. A única certeza nesse carrossel é que, no fim do mês, quem paga a conta é o sujeito que acorda às quatro da manhã para pegar duas conduções até a padaria onde trabalha por salário mínimo.
O arranjo lembra espantosamente certas cortes decadentes do século dezoito, quando reis falidos vendiam títulos da dívida real a banqueiros flamengos para sustentar amantes, bufões e exércitos mercenários. Duas coisas aconteciam sempre no final do filme: os banqueiros ficavam com as terras, e o povo ficava com a fome. Depois vinha alguém de peruca empoada pregar que bastava decapitar uns nobres para resolver. Decapitavam. Em seguida chegava um general de baixa estatura que prometia ordem e entregava guerra. Nós estamos exatamente entre a fase das perucas empoadas e a do general baixinho, só que com wi-fi e aplicativo do Banco do Brasil.
Enquanto isso, a imprensa subvencionada pelo BNDES, pelos bancos públicos e pelas estatais anunciantes nos explica com semblante grave que o verdadeiro problema do país é o algoritmo das redes sociais, o discurso de ódio do vizinho e a necessidade urgente de regular a desinformação econômica. Tradução para o vernáculo: calar a boca de quem ousa abrir a planilha e fazer a soma. Porque quando a soma é feita por um matuto honesto com calculadora de feira, a conta não fecha, e o encanto do arcabouço se desfaz mais rápido que promessa de candidato em segundo turno.
O Brasil não está quebrado por acidente nem por incompetência. Está quebrado por desenho. Quebrado por engenheiros que recebem bônus proporcional ao tamanho do buraco. E o cidadão, esse eterno pagador de impostos sobre impostos, assiste à sua própria espoliação transmitida ao vivo pela GloboNews, com comentários de analistas que trabalham nos bancos que lucram com a espoliação. Não há arcabouço que segure esse castelo de cartas molhadas. Há apenas o tempo, juiz lento mas implacável, que cedo ou tarde cobra a fatura com juros compostos sobre a mentira coletiva.
Quando a música parar, e ela sempre para, não haverá cadeira para ninguém, exceto para quem ajudou a escrever a partitura.
A análise e opinião são do O Algoz.