Anunciaram com pompa de imperador romano que o arcabouço fiscal foi cumprido em 2025, e a imprensa palaciana correu para bater palmas antes mesmo de ler a letra miúda. O déficit ficou dentro da banda, dizem os comunicados oficiais, como se o contribuinte devesse agradecer por ter sido roubado apenas dentro do limite previamente negociado entre ministros e agentes do mercado. A matemática da Fazenda lembra aquele comerciante antigo que, ao ser flagrado com a balança adulterada, jurava solenemente que a adulteração estava dentro dos conformes do alvará. O truque é sempre o mesmo: cria-se uma regra tão flexível que descumpri-la seria obra de um gênio incompetente, e depois se festeja o cumprimento como virtude heroica.

Basta seguir o dinheiro para que a mágica se desmanche. A dívida pública bruta passou dos oitenta por cento do PIB e continua acelerando, alimentada por uma Selic que transforma o Tesouro Nacional numa esteira rolante de juros para o andar de cima. Enquanto o funcionário público médio, o aposentado do INSS e o microempreendedor do interior pagam pela farra via inflação de alimentos e combustíveis, operadores de mesa em São Paulo e Rio capturam rendimentos reais que nenhum produtor honesto consegue igualar. O banqueiro que reclama do governo no café da manhã é o mesmo que aplaude o leilão de títulos da tarde, porque o sistema foi desenhado exatamente para que ele sempre ganhe, ganhe o governo que ganhar.

O governo Lula 3, agora em seu quarto ano, entendeu rapidamente a dinâmica. Aumentou a tributação sobre os fundos exclusivos, apertou o garrote das offshores, reativou o voto de qualidade no CARF, criou a taxação das bets e ainda assim o buraco se alarga. Por quê? Porque a despesa primária real, expurgada das pedaladas contábeis mais criativas vistas desde a era dos precatórios empurrados, cresce acima do teto em termos efetivos. Ministério criado, secretaria desmembrada, benefício expandido, emenda liberada em ano pré-eleitoral. A casa paga. A casa sempre paga. E quando a casa somos nós, a festa vira cortejo fúnebre.

Há algo de particularmente grotesco na maneira como o Congresso participa do ritual. O orçamento secreto renasceu das cinzas sob três ou quatro nomes técnicos diferentes, e o valor das emendas impositivas bateu recorde histórico, ultrapassando cinquenta bilhões de reais só em 2025. Deputados que jamais foram eleitos para administrar uma padaria decidem o destino de verbas que financiam hospitais, estradas e escolas em municípios que sequer visitam. Os antigos tribunos da plebe, na república que ruiu sob peso semelhante, pelo menos precisavam aparecer no fórum para defender suas clientelas. Aqui, basta um ofício no sistema e um telefonema para o prefeito aliado. Democracia representativa virou eufemismo para distribuição estatal de clientela eleitoral.

A reforma tributária, aprovada entre aplausos bipartidários, revelou sua verdadeira natureza em 2026. O IBS e a CBS, vendidos como simplificação, chegaram com alíquota de referência próxima aos vinte e oito por cento, possivelmente a mais alta do mundo conhecido. Setores inteiros descobriram tarde demais que o cashback prometido aos pobres é migalha paternalista, enquanto o peso integral recai sobre serviços, que são justamente o motor do emprego urbano brasileiro. O empreendedor do salão de beleza, da clínica odontológica, do escritório de advocacia pequeno, do restaurante de bairro, todos acordaram descobrindo que foram sacrificados no altar do varejo industrial exportador e das grandes redes que tinham capital para influenciar a redação dos anexos da lei complementar. Seguir o dinheiro, novamente, explica tudo que o discurso técnico tenta esconder.

E então há o Banco Central, transformado em cavalaria de reserva num jogo que sempre favorece o rentismo. A Selic real ronda os sete por cento, um nível que asfixia o investimento produtivo enquanto engorda o patrimônio de quem já tinha patrimônio. Galileu Galilei foi ameaçado pela Inquisição por dizer que a Terra se move, e hoje qualquer economista que ouse sugerir que juros altíssimos, carga tributária recorde e gasto público crescente são incompatíveis entre si recebe o mesmo tratamento dos novos inquisidores midiáticos, aqueles que defendem a ordem estabelecida fingindo combatê-la. A heterodoxia do palanque convive em harmonia com a ortodoxia da Faria Lima, porque ambos lucram com a mesma vítima.

O cidadão comum, aquele que de fato produz riqueza antes que ela seja confiscada, assiste a tudo isso numa espécie de anestesia resignada. A inflação oficial diz uma coisa, o supermercado diz outra, e o salário diz uma terceira ainda mais triste. A poupança perdeu para a inflação de alimentos, o aluguel subiu acima do IGP, o plano de saúde reajustou no limite permitido, e o governo vem à televisão anunciar um novo programa social financiado com o dinheiro que já foi gasto três vezes em três orçamentos diferentes. É o velho truque do prestidigitador de rua, só que agora com apoio institucional, chancela acadêmica e manchete da grande imprensa. Quando um regime precisa reinventar a realidade semanalmente, é porque a realidade já o abandonou há muito tempo.

No fim, o arcabouço não é uma regra fiscal. É um confessionário em que o Estado vai declarar os próprios pecados e, como todo confessor conveniente, sair dali absolvido para reincidir na semana seguinte. Enquanto houver quem aplauda o cumprimento de metas desenhadas para serem cumpridas, haverá espaço para que o saque continue sendo chamado de política pública. A conta final chegará, como sempre chega, e ela não virá endereçada a quem festejou, mas a quem trabalhou em silêncio enquanto os outros dançavam sobre a lápide do próprio bolso.

A análise e opinião são do O Algoz.