Há uma regra não escrita na política brasileira que antecede qualquer constituição, qualquer código e qualquer tribunal: em ano eleitoral, o cofre público se transforma em cornucópia particular. Abril de 2026 confirma a tradição com a desfaçatez de quem já não precisa disfarçar. O Orçamento da União, aquele documento que teoricamente expressa as prioridades de uma nação de duzentos e quinze milhões de almas, virou peça de ficção contábil a serviço de uma coalizão que negocia ministérios como quem negocia gado em feira. As emendas parlamentares, impositivas e de relator, atingem volumes que fariam corar até os velhos coronéis do Império, com a diferença de que os coronéis ao menos tinham a franqueza de admitir que compravam votos. O governo alardeia "investimento social" enquanto o dinheiro percorre circuitos tão opacos que nem o próprio Tribunal de Contas consegue rastrear a destinação final. Siga o dinheiro: ele sai do Tesouro Nacional, atravessa ministérios transformados em balcões de negócio, chega a prefeituras aliadas sob a forma de convênios emergenciais e, por fim, materializa-se em obras inauguradas às pressas, com faixas reluzentes e palanques improvisados, a tempo de aparecer no horário eleitoral gratuito. Quem paga a conta é o mesmo de sempre: o trabalhador que entrega cinco meses do ano ao Leviathan tributário sem receber em troca sequer um sistema de saúde funcional.

O mecanismo é tão antigo quanto a própria ideia de Estado, mas ganhou, no Brasil contemporâneo, uma sofisticação que merece análise detida. A chamada "base aliada" não é um acidente parlamentar; é um modelo de negócios. Cada sigla que compõe a coalizão governista opera como uma franquia: recebe a marca do poder, acesso aos recursos públicos e proteção institucional, em troca de votos no plenário e silêncio sobre os excessos do Executivo. O Centrão, esse eufemismo elegante para designar o mercado atacadista de apoio legislativo, não é um desvio do sistema; é o sistema. E em 2026, com a disputa presidencial no horizonte, o preço do apoio subiu exponencialmente. Ministérios foram redistribuídos, secretarias foram criadas do nada, cargos de segundo e terceiro escalão multiplicaram-se como células em metástase, tudo para acomodar aliados cujo único talento demonstrável é a capacidade de levantar o crachá na hora da votação. O contribuinte brasileiro financia, sem saber e sem consentir, uma máquina de perpetuação de poder que faria inveja aos aparatos burocráticos das monarquias absolutas europeias, com a diferença cruel de que aquelas ao menos produziam catedrais.

Enquanto a classe política transforma o erário em butim eleitoral, o Banco Central segue sua marcha silenciosa rumo à implementação plena do Drex, a moeda digital brasileira. Apresentado ao público como uma inovação tecnológica inofensiva, uma mera modernização do sistema de pagamentos, o Drex é, na verdade, o mais poderoso instrumento de vigilância financeira já concebido em solo nacional. Cada transação registrada, cada centavo rastreado em tempo real, cada movimentação sujeita a regras programáveis que podem ser alteradas por decreto, sem debate parlamentar, sem consulta popular, sem recurso judicial efetivo. A pergunta que nenhum grande veículo de comunicação ousa formular é devastadoramente simples: quem controla o código, controla o dinheiro; e quem controla o dinheiro, controla o cidadão. A possibilidade de congelamento instantâneo de ativos, de imposição de datas de validade para o dinheiro, de restrição de compras por categoria, não é ficção distópica; está descrita nos próprios documentos técnicos do projeto piloto. O dinheiro de papel, com todos os seus inconvenientes, tinha uma virtude que seus substitutos digitais não possuem: era anônimo, e portanto livre. O Drex é o oposto exato: é o dinheiro que te conhece, te observa e, se necessário, te obedece, ou melhor, te faz obedecer.

A imprensa corporativa, naturalmente, trata essas questões com a profundidade de uma poça d'água em calçada. Os grandes jornais, financiados por publicidade estatal e dependentes de benesses fiscais, dedicam suas manchetes à novela das alianças partidárias como se estivessem narrando um campeonato esportivo: quem lidera as pesquisas, quem fechou com quem, quem traiu quem na última reunião de cúpula. A substância, o dinheiro, os contratos, os fluxos reais de poder econômico, fica relegada a notas de rodapé em cadernos que ninguém lê. Não é incompetência; é modelo de negócio. Um jornalismo que investigasse a sério os mecanismos de financiamento da política brasileira morderia a mão que o alimenta. Então se produz, em escala industrial, um jornalismo de entretenimento político, onde o espetáculo das declarações e contradeclarações substitui a análise dos balanços, das licitações, dos termos de cooperação, das transferências voluntárias. O cidadão que depende exclusivamente dessa imprensa para formar sua visão de mundo está tão informado quanto um espectador de teatro de sombras que acredita estar vendo a realidade projetada na parede da caverna.

A reforma tributária, vendida em 2023 como a redenção fiscal do país, revela agora, na fase de regulamentação e transição, sua verdadeira face: uma reorganização da carga que beneficia grandes grupos econômicos com capacidade de lobby e penaliza desproporcionalmente pequenos e médios empreendedores que não têm advogado tributarista nem acesso a gabinetes em Brasília. O IBS e a CBS, que deveriam simplificar o sistema, criaram uma burocracia paralela que se soma à existente em vez de substituí-la. Os setores que conseguiram tratamento diferenciado, as exceções, os regimes especiais, as alíquotas reduzidas, formam um mapa preciso das relações de poder econômico no Brasil de 2026. Não é preciso ler teoria econômica para entender: basta olhar quem conseguiu a exceção e perguntar quanto doou, formal ou informalmente, às campanhas dos relatores. A simplificação prometida resultou em mais de quatrocentos artigos de regulamentação, um labirinto normativo que garante emprego eterno para a casta dos consultores tributários e mantém o empreendedor comum refém de um sistema que ele não tem condições materiais de compreender, muito menos de cumprir integralmente. Todo imposto é, em última análise, uma transferência compulsória de riqueza do setor produtivo para o setor político. A diferença é que agora a transferência vem embalada em papel de presente digital, com QR Code e nota fiscal eletrônica, como se a embalagem mudasse a natureza da expropriação.

O mais perturbador não é a mecânica do saque, mas a aquiescência do saqueado. O brasileiro médio de 2026 foi treinado, ao longo de gerações, a considerar o Estado como entidade provedora, como pai severo porém necessário, como fonte de direitos que brotam do nada e não custam nada a ninguém. A ideia de que cada centavo gasto pelo governo foi primeiro arrancado do bolso de alguém que trabalhou para obtê-lo é tratada como excentricidade ideológica, quando não como heresia política. As universidades, que deveriam ser o último reduto do pensamento crítico, transformaram-se em fábricas de conformismo intelectual, onde questionar o tamanho do Estado é considerado tão aceitável quanto questionar a lei da gravidade em um departamento de física. O resultado é uma população que aplaude o próprio empobrecimento, que celebra programas sociais financiados com a destruição do poder de compra de sua moeda, que vota agradecida em quem lhe devolve, sob a forma de migalhas assistenciais, uma fração ínfima do que lhe foi tomado em impostos diretos, indiretos, inflação e regulação asfixiante. A servidão voluntária não precisa de correntes; precisa apenas de ignorância econômica suficiente para que o escravo agradeça ao senhor pela comida que ele próprio plantou.

Há quem argumente que tudo isso é democracia funcionando, que o povo escolheu seus representantes e deve arcar com as consequências. O argumento seria válido se a democracia brasileira operasse em condições mínimas de simetria informacional. Mas não opera. Opera sob um regime de assimetria radical, onde quem decide tem acesso a informações, recursos e instrumentos de coerção que o eleitor médio sequer imagina existir. O voto, nessas condições, não é expressão de soberania popular; é ratificação periódica de um arranjo de poder que se reproduz independentemente do resultado eleitoral. Muda-se a face, preserva-se a estrutura. Troca-se o locutor, mantém-se o roteiro. E o roteiro, em 2026 como em 1926, é sempre o mesmo: concentração de poder político, expansão do aparato estatal, captura de renda pelo estamento burocrático e transferência do custo para o setor produtivo e para as gerações futuras via endividamento público. O que muda são os eufemismos: ontem era "progresso e ordem", hoje é "inclusão e sustentabilidade". A substância é idêntica. O dinheiro flui na mesma direção. Sempre fluiu.

Resta ao cidadão que ainda conserva a capacidade de indignação uma escolha incômoda: ou aceita o papel de financiador involuntário da própria submissão, ou começa a fazer as perguntas que o sistema foi desenhado para evitar. Para onde vai o dinheiro? Quem assinou o contrato? Qual o patrimônio declarado do político antes e depois do mandato? Quem são os verdadeiros beneficiários das emendas, dos convênios, das parcerias público-privadas? Essas perguntas não são técnicas; são morais. E a resposta a cada uma delas é um tijolo a menos na muralha de mentiras que sustenta o edifício do poder. O Algoz não promete redenção, não vende esperança barata nem consolo ideológico. Promete apenas isto: seguir o dinheiro até onde ele leva, e contar o que encontrar no caminho. Porque num país onde o orçamento público é segredo de Estado disfarçado de transparência, a verdade sobre o dinheiro é o último ato de desobediência que ainda resta ao homem livre.

A análise e opinião são do O Algoz.