Em abril de 2026, o IPCA acumulado já estourou o teto da meta pelo terceiro período consecutivo, e o governo reage como um jogador compulsivo que perdeu tudo na roleta: dobrando a aposta. O dólar passou dos seis reais e ali se instalou como quem comprou apartamento, e nenhum economista de plantão no Planalto consegue explicar por que a moeda de um país com a maior reserva de terras aráveis do planeta, com minério, petróleo e agronegócio recordista, vale menos que o papel em que se imprime. A resposta, naturalmente, não está na economia real. Está no arranjo político que vampiriza a economia real. Cada centavo que o Tesouro emite para cobrir um rombo fiscal que já passou de qualquer limite razoável é um centavo roubado do poder de compra de quem acorda às cinco da manhã para trabalhar. Inflação não é fenômeno climático. Inflação é política monetária. É decisão de gabinete. É alguém, com nome e cargo, assinando a autorização para diluir a riqueza de sessenta milhões de trabalhadores formais para financiar a permanência de um projeto de poder.
A reforma tributária, vendida com o verniz sedutor da simplificação, revelou sua verdadeira face: um mecanismo de arrecadação ampliada sobre exatamente quem já sustenta a máquina. O pequeno empresário que emprega oito pessoas numa cidade do interior paulista agora precisa de um escritório de contabilidade maior para decifrar o novo código, enquanto o grande conglomerado com departamento jurídico de duzentos advogados já encontrou as brechas antes mesmo da regulamentação entrar em vigor. Sempre foi assim em toda civilização que confundiu tributação com justiça: o imposto complexo protege quem pode pagar consultoria e esmaga quem não pode. O sujeito que vende pão, que fabrica móvel, que conserta carro, esse não tem lobista em Brasília. Esse paga. Paga calado, paga sem entender, paga achando que é o custo de viver num país civilizado, sem perceber que civilização de verdade é justamente o oposto disso: é o Estado limitado pela lei, e não a lei moldada pelo apetite do Estado.
No Supremo Tribunal Federal, a democracia brasileira assiste a um espetáculo que seria cômico se não fosse a última instância do poder. Ministros legislam por portaria, criam tipos penais por interpretação criativa, determinam prisões sem crime tipificado e bloqueiam plataformas inteiras de comunicação com a naturalidade de quem manda fechar uma torneira. O inquérito das fake news, que já nasceu sem forma processual reconhecível, se tornou uma jurisdição paralela, um tribunal dentro do tribunal, onde o acusador, o investigador e o juiz dividem o mesmo gabinete e, frequentemente, o mesmo CPF. Quando um poder da República se arroga a função dos outros dois, o nome técnico disso não é ativismo judicial. É concentração de poder. E toda concentração de poder, sem exceção na história, termina no mesmo lugar: no abuso sistemático contra quem não tem como se defender.
A censura, que voltou ao vocabulário nacional com eufemismos como "regulação de plataformas" e "combate à desinformação", opera com uma lógica que qualquer estudioso de regimes autoritários reconheceria em cinco minutos. Primeiro, define-se uma categoria de discurso como perigosa. Depois, atribui-se a um órgão estatal o poder de decidir o que se enquadra nessa categoria. Em seguida, qualquer crítica ao órgão é classificada como exemplo do discurso perigoso que justificou sua criação. O ciclo se fecha com perfeição geométrica. Jornalistas são intimidados, perfis são derrubados, e o cidadão comum aprende, pelo exemplo, que certos assuntos é melhor não tocar. O mais revelador não é o que está sendo censurado, mas o que nunca é censurado: propaganda estatal, promessas eleitorais inverificáveis e as lives ministeriais onde se gasta dinheiro público para mentir com produção profissional.
Nas universidades, o que se chama de guerra cultural é, na verdade, algo mais preciso e mais grave: é a ocupação institucional completa do aparelho de formação intelectual do país. Não se trata de um debate entre ideias concorrentes, porque para haver debate é necessário que as duas partes possam falar. O que existe é um monopólio de cátedra onde uma única leitura do mundo é permitida, e qualquer dissidência é punida não com contra-argumentos, mas com processos administrativos, cancelamento de bolsas e ostracismo profissional. O resultado está nos números que ninguém divulga: o Brasil forma milhares de mestres e doutores por ano em ciências humanas, e a produtividade intelectual do país, medida por patentes, inovações aplicáveis e contribuições originais ao conhecimento, continua em queda livre. Estamos financiando, com dinheiro do contribuinte, uma indústria de diplomas que não gera conhecimento, mas gera militância. E militância não alimenta ninguém.
A mídia tradicional, enquanto isso, se pergunta por que perde audiência como um balde furado perde água, e a resposta está no espelho que ela se recusa a consultar. Durante décadas, o jornalismo brasileiro funcionou como porteiro de boate: decidia quem entrava no debate público e quem ficava do lado de fora. A internet derrubou a porta. E em vez de competir pela credibilidade, as grandes redações escolheram competir pelo favor do poder, transformando-se em assessorias de imprensa disfarçadas de veículos independentes. O leitor não é burro. Ele percebe quando a manchete de capa sobre "crescimento econômico" não bate com o preço do arroz. Ele percebe quando o escândalo do aliado é "episódio" e o do adversário é "crise institucional". A cada contorcionismo editorial, a cada omissão calculada, mais um punhado de leitores migra para fontes alternativas. Não porque essas fontes sejam perfeitas, mas porque ao menos não fingem ser o que não são.
A dívida pública brasileira, o elefante que ninguém no governo quer ver na sala, já ultrapassou qualquer métrica de sustentabilidade que se queira aplicar. E aqui o raciocínio é de uma simplicidade que ofende: um governo que gasta mais do que arrecada precisa pedir emprestado; quem empresta cobra juros; juros sobre uma dívida crescente consomem parcela cada vez maior do orçamento; para pagar os juros, o governo ou corta gastos, ou aumenta impostos, ou imprime dinheiro. Cortar gastos é politicamente inviável quando sua base eleitoral depende de transferências. Aumentar impostos tem limite físico, porque o contribuinte já entrega quase metade de tudo que produz. Resta imprimir, que é o nome educado de roubar via inflação. O ciclo está em andamento. Não é previsão. É descrição do presente. Cada real transferido hoje em programa assistencial é um real que será cobrado amanhã, com juros compostos, de quem trabalha. A conta chega. Sempre chega. E nunca chega para quem assinou o cheque.
O Brasil de abril de 2026 não é um país em crise. Crise pressupõe excepcionalidade, um desvio da norma que eventualmente se corrige. O que temos é um sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar: extraindo riqueza da sociedade produtiva para alimentar uma máquina política que existe para se perpetuar. Cada ministério, cada estatal, cada fundo partidário, cada emenda de relator é uma peça desse mecanismo. E o combustível da máquina é a ilusão de que ela existe para servir quem a financia. Não existe reforma possível dentro de um sistema cujo propósito é impedir reformas. Não existe solução eleitoral quando todas as opções do cardápio são variações do mesmo prato. O que existe é a escolha individual de cada brasileiro que ainda pensa: ou você entende o jogo e age de acordo, ou o jogo te usa como ficha. A classe média não está desaparecendo por azar. Está sendo devorada porque é o único nutriente disponível para uma máquina que não sabe fazer outra coisa senão devorar.
A análise e opinião são do O Algoz.