Existe um tipo de mentira tão grande, tão repetida, tão institucionalizada, que deixa de ser mentira e vira liturgia. A democracia brasileira é isso: uma liturgia. Tem ritual, tem data marcada, tem feriado nacional, tem tinta no dedo, tem fila na escola, tem palanque que repete. E o cidadão sai de lá com a sensação morna de que participou de alguma coisa, como quem acende uma vela numa igreja em que não acredita mais. O problema não é que o sistema esteja quebrado. O problema é que ele funciona perfeitamente bem para quem o desenhou. Cada engrenagem, cada cláusula de barreira, cada coligação proporcional, cada emenda de relator, cada fundo partidário, cada minuto de propaganda eleitoral gratuita paga com dinheiro público, tudo isso existe por uma razão precisa: garantir que o poder circule entre os mesmos, vestindo roupas diferentes a cada quatro anos. Não é disfunção. É projeto. E o projeto, em 2026, já nem se dá ao trabalho de disfarçar.

Comecemos pelo dinheiro, porque é sempre pelo dinheiro que a verdade aparece. O Fundo Eleitoral brasileiro ultrapassou a marca dos seis bilhões de reais. Seis bilhões. Dinheiro público, extraído do orçamento da União, transferido diretamente para as contas de partidos políticos que, na prática, são holdings familiares com estatuto registrado em cartório. Não existe nenhum outro país no planeta que financie com tamanha generosidade a perpetuação de suas próprias oligarquias. O argumento oficial é que o fundo público evita a corrupção do financiamento privado. A lógica é tão cínica que beiraria o humor se não custasse tão caro: para evitar que o político roube dinheiro privado, entregamos a ele dinheiro público. É como trancar o ladrão dentro do cofre e chamar isso de segurança. O resultado está nos números que ninguém discute em horário nobre: partidos que não elegem um vereador sequer recebem milhões; dirigentes partidários vivem como executivos de multinacionais; e candidatos que ninguém conhece gastam mais em campanha do que o PIB de municípios inteiros. O fundo eleitoral não financia a democracia. Ele financia a indústria que simula democracia.

E quando o dinheiro entra, a representação sai. O Congresso Nacional brasileiro não legisla. Essa frase parece exagero até que você observe o que realmente acontece naqueles plenários. A esmagadora maioria das leis que alteram a vida do cidadão comum não nasce de projeto parlamentar: nasce de medida provisória do Executivo ou de decisão monocrática do Judiciário. O Congresso, que pela Constituição deveria ser a casa da deliberação popular, se transformou em balcão de negociação de emendas parlamentares. O deputado não vota conforme sua convicção ou conforme a vontade do eleitor. O deputado vota conforme o volume de emendas que o governo federal libera para sua base. As emendas de relator, que durante anos funcionaram como orçamento secreto, foram apenas a versão mais escandalosa de um mecanismo antigo: o Executivo compra votos no Legislativo com dinheiro do contribuinte, e o Legislativo finge que está governando enquanto apenas administra a própria fatia do saque. Não é governança. É repartição de espólio.

Mas nenhuma instituição brasileira acumulou tanto poder ilegítimo com tão pouca cerimônia quanto o Supremo Tribunal Federal. Em qualquer república que se leve a sério, o tribunal constitucional é o guardião dos limites, o árbitro silencioso que intervém quando os demais poderes ultrapassam a linha. No Brasil de 2026, o STF é o poder que traça a linha, move a linha, apaga a linha e desenha outra onde lhe convém. Ministros decidem individualmente, em liminares monocráticas, questões que afetam a liberdade de expressão de duzentos e quinze milhões de pessoas. Inquéritos são abertos sem a provocação do Ministério Público, conduzidos pelo próprio tribunal, que é ao mesmo tempo investigador, acusador e juiz. Plataformas digitais são suspensas por decisão de um único magistrado, sem contraditório, sem prazo definido, sem possibilidade real de recurso. E quando alguém ousa questionar esse acúmulo obsceno de atribuições, a resposta institucional é enquadrar a crítica como ataque à democracia. O tribunal que deveria proteger a Constituição se tornou o maior legislador do país, e o fez sem jamais receber um único voto popular. Roma não caiu porque os bárbaros eram fortes. Roma caiu porque o Senado já não governava, e os que governavam não respondiam a ninguém.

A imprensa, que em qualquer sociedade livre deveria ser o contrapeso, o incômodo permanente, a pedra no sapato de quem governa, no Brasil opera como departamento de comunicação do sistema. Não todos, não sempre, mas o suficiente para que o efeito seja devastador. Os maiores grupos de mídia do país recebem verbas publicitárias do governo federal, dos governos estaduais e das prefeituras. Recebem concessões de rádio e televisão que valem fortunas e são renovadas com a discrição de quem renova assinatura de revista. Recebem isenções fiscais, linhas de crédito subsidiado, proteção regulatória contra concorrentes digitais. E entregam, em troca, uma cobertura que oscila entre a omissão calculada e o alarme seletivo. Fiscalizam com vigor cirúrgico os adversários do momento e tratam com delicadeza protocolar os aliados de conveniência. O jornalismo investigativo, quando existe, existe apesar do modelo de negócio, não por causa dele. O que o brasileiro médio consome como informação é, em grande parte, narrativa subsidiada. Versalhes não precisava de censura porque a corte já controlava quem falava e sobre o quê. O Brasil de 2026 também não precisa.

Os partidos políticos, essas entidades que deveriam ser veículos de representação ideológica, são no Brasil o que os cartórios são para o mercado imobiliário: intermediários obrigatórios que cobram pedágio por um serviço que ninguém pediu. O cidadão não pode se candidatar sem partido. O partido não sobrevive sem fundo partidário. O fundo partidário é proporcional à bancada. A bancada é proporcional ao tempo de televisão. O tempo de televisão é proporcional ao poder de negociação com o governo. O governo negocia com quem tem bancada. E o ciclo se fecha com a elegância de uma cobra mordendo a própria cauda. Não existe, nesse circuito, nenhum ponto onde a vontade do eleitor entre como variável decisiva. O eleitor é o álibi do processo, não o protagonista. Ele valida com seu comparecimento obrigatório, com seu voto obrigatório, com sua participação obrigatória, um sistema que funcionaria exatamente da mesma maneira se ele não existisse. Os nomes mudariam, talvez. As siglas mudariam. As cores de campanha mudariam. Mas a estrutura de poder, a distribuição de recursos, a lógica de perpetuação das mesmas famílias, dos mesmos grupos econômicos, dos mesmos operadores, essa permaneceria intacta como permanece há décadas, como permaneceu durante a monarquia, durante a República Velha, durante o Estado Novo, durante a ditadura, durante a redemocratização. A roupa muda. O corpo é o mesmo.

O que torna 2026 particularmente revelador não é que a farsa seja nova. É que ela já não precisa de máscara. O orçamento secreto foi exposto, escandalizado, debatido em todo canto, e substituído por mecanismos igualmente opacos com nomes diferentes. O STF concentrou poderes que nenhum tribunal do Ocidente possui, e a reação institucional foi um encolher coletivo de ombros. O fundo eleitoral cresceu em ano de crise fiscal, e nenhum partido relevante votou contra. As emendas parlamentares seguem sendo moeda de troca, e os líderes partidários seguem sendo operadores de balcão. A transparência que a tecnologia deveria ter trazido, a crachá de deputado, o portal da transparência, as sessões transmitidas ao vivo, tudo isso produziu o efeito oposto do prometido: não aproximou o cidadão do poder, apenas deu ao poder um verniz de legitimidade digital. O tirano moderno não precisa de tanques na rua. Precisa de likes, de algoritmo, de hashtag institucional e de um portal bonito onde o cidadão pode consultar, em tempo real, como seu dinheiro está sendo transferido para as mesmas mãos de sempre.

A pergunta final, então, não é se o Brasil tem democracia. A pergunta é para quem ela funciona. Porque se democracia significa que o povo governa, então o que temos é uma fraude semântica de proporções continentais. O povo não governa. O povo comparece. O povo aperta botão. O povo volta para casa. E entre uma eleição e outra, quatro anos se passam em que decisões que definem o destino de gerações são tomadas em gabinetes climatizados por pessoas que o eleitor não escolheu, não conhece e não pode remover. O nome disso não é democracia. O nome disso é gestão de rebanho com crachá de deputado. E enquanto o cidadão brasileiro não entender que seu voto não é poder, é ingresso de plateia numa peça cujo roteiro já estava escrito antes de ele entrar no teatro, nada, absolutamente nada, vai mudar. A corrente mais eficiente não é a que prende o corpo. É a que convence o preso de que ele é livre.

A análise e opinião são do O Algoz.