A prisão de Alexandre Ramagem pelo ICE nos Estados Unidos não é apenas um episódio policial: é o atestado de óbito da soberania operacional brasileira. Um ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, o homem que teoricamente conhece os segredos mais sensíveis do Estado brasileiro, está sob custódia de uma agência migratória estrangeira. Não foi a Interpol. Não foi um pedido formal de extradição via Ministério da Justiça. Foi o braço mais truculento da burocracia imigratória americana que o recolheu como quem recolhe um imigrante qualquer em situação irregular. A pergunta que ninguém no Planalto quer responder é simples: que tipo de acordo tácito ou negligência ativa permitiu que um depositário de segredos de Estado ficasse exposto dessa forma? Quando se segue o dinheiro, a resposta costuma aparecer. Ramagem incomodava gente dos dois lados do balcão, e sua neutralização em território estrangeiro é conveniente demais para ser acidental. O silêncio do Itamaraty não é diplomacia; é cumplicidade.

A CPI das Togas, essa criatura improvável que nasceu da indignação acumulada contra um Supremo Tribunal Federal que há anos confunde jurisdição com reinado, finalmente ganhou corpo no Senado. E aqui reside a ironia mais cruel da República: os mesmos senadores que por décadas alimentaram o monstro togado com indicações políticas, trocas de favores e silêncio cúmplice agora fingem espanto diante da criatura que ajudaram a criar. A CPI é necessária, sem dúvida. Mas acreditar que ela será conduzida com seriedade por um parlamento que negocia emendas como quem negocia gado no leilão exige um nível de fé que nem os mais devotos conseguem reunir. O STF se transformou num poder constituinte permanente, legislando por portaria, censurando por liminar, e governando por inquérito. A toga virou farda, e o gabinete virou quartel. A diferença é que quartéis ao menos têm hierarquia clara; no Supremo, cada ministro é um exército de um homem só.

Mas o capítulo mais grotesco desta semana pertence à revelação de que o presidente da República orientou diretamente um juiz no caso Marielle Franco. Não importa o mérito da causa, não importa se a intenção era nobre ou vil. O princípio é inegociável: quando o chefe do Executivo sussurra no ouvido do Judiciário, o que morre não é apenas a separação de poderes, é a própria ideia de que existe algo chamado Justiça com J maiúsculo. Lula, que construiu toda sua narrativa política sobre ser vítima de um Judiciário parcial, aparentemente não vê contradição alguma em ser o arquiteto da mesma parcialidade quando ela lhe convém. O problema nunca foi a interferência em si; o problema sempre foi quem interfere. Quando o rei reclama do veneno, não é porque detesta veneno, é porque não foi ele quem serviu o cálice.

A oposição, essa entidade mitológica que deveria funcionar como contrapeso numa democracia, atravessa sua crise existencial mais patética. Sem liderança unificada, sem projeto alternativo, sem sequer a capacidade básica de articular uma narrativa coerente, a direita brasileira se resume a um amontoado de siglas que brigam entre si com mais vigor do que jamais brigaram contra o governo. O bolsonarismo, órfão de seu patriarca inelegível, fragmentou-se em feudos digitais onde cada influenciador se julga o herdeiro legítimo do espólio político. Enquanto isso, o centrão faz o que sempre fez: governa de fato, cobra o preço em cargos e verbas, e ri discretamente enquanto esquerda e direita encenam uma guerra cultural que não ameaça um centavo sequer dos orçamentos secretos. Quem financia a política brasileira sabe que ideologia é o teatro; o caixa é o roteiro.

E por falar em caixa, olhemos para os números que realmente importam. O dólar acima de 6 reais não é um acidente climático, é o termômetro preciso da confiança que o mundo tem no Brasil. O petróleo a 103 dólares, inflado pela escalada com o Irã, transforma cada ida ao posto de gasolina numa experiência de expropriação consentida. O IPCA estourando a meta é apenas a confirmação aritmética do que qualquer dona de casa já sabe quando vai ao supermercado: o dinheiro derrete. O governo responde com a mesma receita de sempre, mais gasto público financiado com dívida, mais crédito subsidiado para quem não precisa, mais transferência de renda que não gera renda. É a velha alquimia estatal: transformar trabalho produtivo em imposto, imposto em burocracia, e burocracia em miséria distribuída democraticamente. A inflação não é um bug do sistema; é a feature. É o imposto que não precisa de votação, a expropriação que não precisa de decreto, o roubo que não precisa de arma. Basta uma impressora no Banco Central e um ministro da Fazenda com talento para eufemismos.

O cenário geopolítico completa o quadro com tintas apocalípticas. O petróleo a 103 dólares deveria ser uma bênção para um país que é o oitavo maior produtor mundial. Deveria. Mas no Brasil, riqueza natural é maldição administrativa. A Petrobras, essa obra-prima da esquizofrenia estatal, é simultaneamente pressionada a segurar preços internos para conter inflação e a maximizar dividendos para tapar o buraco fiscal. O resultado é previsível: não faz nem uma coisa nem outra direito. O acionista minoritário paga, o consumidor paga, o contribuinte paga. Quem não paga é quem decide.

O que une Ramagem preso nos EUA, a CPI das Togas, Lula orientando juiz, a oposição em frangalhos e a economia em combustão é um fio condutor que nunca muda neste país: a completa dissolução dos limites entre o público e o privado, entre o Estado e o indivíduo, entre o poder e o direito. Cada um desses episódios é uma variação do mesmo tema: instituições que existem para servir o cidadão foram capturadas por quem deveria servi-las. O Judiciário serve a si mesmo. O Executivo serve a seu projeto de poder. O Legislativo serve a quem paga mais. E o cidadão? O cidadão serve. Apenas serve.

O contribuinte brasileiro é o único jogador de pôquer do mundo que financia as fichas de todos os outros jogadores, não pode ver as cartas de ninguém, e ainda assim é obrigado a agradecer quando perde.

A análise e opinião são do O Algoz.