O brasileiro acordou em abril de 2026 com a notícia de que o tomate subiu quarenta por cento em três meses, o arroz voltou a flertar com o patamar pré pandemia e a carne bovina já não cabe mais no orçamento de quem ganha dois salários mínimos. A explicação oficial, sempre pronta, sempre conveniente, fala em "fatores climáticos", em "choques externos", em "ajustes sazonais". É a velha liturgia do regime, repetida por economistas de gravata cara que nunca puseram o pé num supermercado de bairro. A verdade, porém, é mais simples e infinitamente mais constrangedora: ninguém paga conta de almoço grátis, e o almoço do Planalto tem sido suntuoso.

Observe o movimento das peças no tabuleiro. O Tesouro emitiu, só no primeiro trimestre, volumes recordes de títulos públicos para cobrir um déficit primário que o ministro jura ser "transitório" desde 2023. O Banco Central, em sua independência decorativa, segura a Selic num patamar que sangra o investimento produtivo mas alimenta a indústria mais lucrativa do país, que é a indústria de comprar dívida do governo. Quem ganha com isso não é o pedreiro, não é a costureira, não é o motorista de aplicativo. Quem ganha é a meia dúzia de bancos que, em meio à "crise", reportou lucros trimestrais que beiram o obsceno. Coincidência? Quem ainda acredita em coincidência depois de quarenta anos de redemocratização merece o governo que tem.

O fenômeno tem nome técnico, escondido nos manuais que ninguém lê, e tem nome popular, que todo mundo entende: chama se imposto inflacionário. É o tributo mais perfeito já inventado, porque é cobrado sem voto no Congresso, sem nota fiscal, sem rosto. O Estado imprime dinheiro, ou emite dívida que será monetizada na curva, e o poder de compra da sua geladeira encolhe silenciosamente enquanto você dorme. Funciona como aquele velho truque dos imperadores decadentes que raspavam as bordas das moedas de ouro para pagar legionários e cortesãs, devolvendo ao mercado um dinheiro mais leve, mais magro, mais pobre. O cidadão romano também não entendia por que o pão custava mais a cada estação. O cidadão brasileiro, em pleno século vinte e um, está exatamente no mesmo lugar, com a diferença de que troca a denúncia pela fila do Pix.

E para onde vai esse dinheiro raspado da sua moeda? Aqui a trilha fica deliciosamente clara para quem tem estômago de segui la. Vai para os contratos bilionários de comunicação institucional distribuídos a agências cujos sócios compareceram a comícios. Vai para fundos partidários inflados na calada da noite por uma emenda de redação. Vai para bancos públicos recapitalizados sob pretextos macroeconômicos sofisticados, mas cujo verdadeiro propósito é financiar amigos do rei a juros de subsidiário. Vai para ONGs amazônicas que produzem relatórios em inglês, em papel reciclado, e cujos diretores moram em Brasília. Cada centavo que falta no seu carrinho do supermercado tem um destinatário, e nenhum deles é pobre.

O mais fascinante é a engenharia retórica que sustenta o esquema. Criou se uma indústria de especialistas, colunistas, podcasters subsidiados, professores de universidades federais e influenciadores de Instagram que repetem, com pequenas variações estilísticas, sempre o mesmo refrão: a culpa é do mercado, a culpa é do agronegócio, a culpa é da especulação, a culpa é de Trump, a culpa é da geada, a culpa é do El Niño, a culpa é da Lua. Nunca, jamais, em hipótese alguma, a culpa é de quem decide quanto se gasta e quanto se imprime. É como aquela velha imagem do homem que mata os pais e depois pede clemência ao tribunal alegando ser órfão. O regime brasileiro destruiu a moeda e agora pede compreensão pela carestia.

Há também o componente cultural, talvez o mais corrosivo de todos. Educou se uma geração inteira a desprezar quem produz e a venerar quem distribui. O empresário que arrisca capital, contrata, paga folha e gera riqueza tornou se vilão de novela, suspeito permanente, sonegador presumido. Já o burocrata que vive do imposto alheio, que nunca enfrentou um cliente, que nunca cumpriu prazo de fornecedor, foi promovido ao posto de herói republicano, defensor do povo, guardião da democracia. Inverteram se as estátuas e os pedestais, e quem ousa apontar a inversão é tachado de bárbaro insensível. Sociedades que confundem o produtor com o parasita, e o parasita com o santo, costumam terminar em cenas que nenhum livro de história conta sem pudor.

O remédio existe, é antigo, é conhecido e é simples, o que talvez explique por que ninguém em Brasília queira aplicá lo. Cortar gasto, parar de imprimir, respeitar o contrato, blindar a propriedade privada, libertar o produtor das amarras tributárias, devolver ao cidadão o direito de poupar numa moeda que não derreta na carteira. Nada disso depende de gênio, depende de decência. E decência, no atual arranjo de poder, é mercadoria mais escassa que tomate em abril. Enquanto isso, o palácio anuncia novos programas, novas bolsas, novos auxílios, todos pagos com o dinheiro invisível que sai do seu bolso sem que você perceba, porque o ladrão mais eficiente é aquele que convence a vítima de que está sendo socorrida.

No fim, a inflação não é um fenômeno meteorológico nem uma fatalidade astrológica. É uma escolha política travestida de acidente natural, e quem se beneficia dela jamais vai admitir o crime, pelo mesmo motivo que nenhum lobo redige cartilha sobre proteção das ovelhas.

A análise e opinião são do O Algoz.