Neste abril de 2026, o noticiário econômico parece um boletim de guerra. Tarifas americanas sobem contra produtos chineses, europeus, mexicanos e brasileiros. Pequim responde. Bruxelas retalia. Brasília observa paralisada, enquanto o café, o aço e a soja despencam no porto. Chama-se a isso política comercial, mas a palavra engana. Quem vê com honestidade reconhece o que está diante dos olhos: uma rede de punições recíprocas, disfarçadas de estratégia, pagas pelo trabalhador que nunca foi consultado.

Para entender o tamanho do erro, é preciso perguntar o que é, afinal, a troca entre povos. Qual é a sua matéria? Bens reais, produzidos por braços reais. Qual é a sua forma? O acordo entre duas partes que se beneficiam do encontro. Quem a faz? O produtor e o consumidor, não o burocrata. Para que serve? Para que cada povo tenha aquilo que, sozinho, não poderia produzir tão bem. Esta é a finalidade natural do comércio: prover a vida. Quando essa finalidade se perde, o que resta é uma estrutura vazia usada como bandeira ou como arma.

A degeneração tem nome antigo. Existe a arte de ganhar para viver, que é natural e limitada pela necessidade humana. E existe a arte de ganhar por ganhar, que é artificial e não conhece medida, porque o dinheiro, uma vez tomado como fim, é um abismo sem fundo. O mesmo vale para o poder das nações. Quando a troca deixa de ser meio de prosperidade e vira instrumento de dominação, o governante já não serve ao cidadão, serve à própria imagem no espelho do adversário. O ganho do povo desaparece do cálculo. O que importa é humilhar o outro.

Observe a falácia que sustenta o barulho. Dizem ao trabalhador: ou protegemos tudo, ou seremos colônia. Falso dilema, e dos mais grosseiros. Entre a autarquia suicida e a dependência total existe um território imenso onde habita a prudência, aquela virtude discreta que sabe o que fazer na circunstância exata. A prudência é meio-termo, e todo meio-termo exige pensar; por isso os demagogos a odeiam. É muito mais rentável oferecer o extremo embrulhado em bandeira: dá voto, dá aplauso, dá manchete. E custa apenas o emprego alheio.

Há ainda a fraqueza moral que não se confessa. O governante sabe que a tarifa encarece o pão do seu próprio eleitor, sabe que o agricultor perderá a safra, sabe que a indústria que finge proteger já está apodrecida por dentro. Sabe, e faz assim mesmo. Esta é a doença política por excelência: enxergar o bem e escolher o mal porque o mal é mais vistoso. Não é ignorância, é covardia vestida de firmeza. O cidadão confunde a voz grossa com coragem, quando é apenas o tremor do homem que não tem mais o que oferecer senão inimigos.

A consequência é lógica, não acidental. Um regime que deveria buscar o bem comum descobre que é mais fácil prosperar cultivando o ressentimento. A troca, que é amizade entre povos por utilidade mútua, regride à hostilidade entre tribos. E a tribo não constrói catedrais, não cura doenças, não educa filhos; a tribo apenas sobrevive, desconfiada, empobrecida, orgulhosa da sua própria pobreza porque chamou a pobreza de soberania. A história mostra, sem exceção, o que acontece quando a classe média de uma nação é esmagada entre o oligarca protegido e o demagogo aplaudido: a estabilidade desaparece e, com ela, a própria possibilidade de vida política digna.

Resta a pergunta que ninguém quer fazer em ano eleitoral, porque ela desnuda a farsa inteira. Para que existe uma nação? Se existe para enriquecer seus mercadores, é um balcão. Se existe para exaltar seus líderes, é um palco. Se existe para humilhar vizinhos, é um quartel. A nação digna desse nome existe para que seus cidadãos vivam bem, e viver bem não é acumular nem vencer, é exercer com excelência aquilo que nos faz humanos: pensar, produzir, conviver, transmitir. Quando a política esquece esse fim, todo o resto é ruído, e o ruído, por mais alto que seja, nunca alimentou ninguém.

A análise e opinião são do O Algoz.