A Nidec, uma das maiores fabricantes de motores elétricos do planeta, viu seus papéis desabarem para a mínima de dez anos depois de admitir irregularidades contábeis em subsidiárias. Traduzindo para quem fala português: alguém, em algum lugar da estrutura, estava maquiando número e empurrando com a barriga até que o buraco ficou grande demais para caber embaixo do tapete corporativo. O mercado, que até ontem precificava a empresa como joia da coroa industrial japonesa, hoje descobre que estava comprando balanço cosmético a preço de verdade auditada.
Olha, há uma indústria inteira paga para evitar exatamente este tipo de episódio. Auditores de primeira linha cobram fortunas para carimbar demonstrações financeiras. Reguladores publicam manuais de governança do tamanho de listas telefônicas. Agências de rating emitem notas com ar de oráculo. Casas de análise despacham relatórios semanais com projeções cheias de decimal. E ainda assim, quando a casa cai, descobrimos invariavelmente que o escândalo estava ali, debaixo do nariz, sinalizado por qualquer um que soubesse ler nota de rodapé. A pergunta não é por que ninguém viu. É por que ninguém, dentro desse arranjo todo, tinha incentivo real para enxergar.
Siga o dinheiro e a resposta aparece inteira. O auditor é contratado e pago pela empresa auditada; o regulador vive de taxa recolhida do setor que deveria vigiar; o analista de banco não ganha para desaconselhar o papel que a mesa de operações da própria casa está vendendo. Esse é o capitalismo de compadrio que se traveste de livre mercado e depois, quando estoura, serve de desculpa para pedir mais regulação, mais Estado, mais comissão de inquérito. Como se o problema fosse falta de regra, e não excesso de arranjo entre quem fiscaliza e quem é fiscalizado.
O que o investidor comum perde nessa história é só a parte visível do estrago. Há também o que não se vê: o capital que foi alocado em uma empresa aparentemente saudável e, portanto, não foi alocado em outra, menor, honesta, sem lobby em Tóquio, sem relações públicas em Nova York, sem conselheiros de terno caro em Davos. Cada bilhão que a Nidec captou com balanço inflado é um bilhão que uma empresa de verdade não captou. A fraude contábil não é só prejuízo do acionista enganado; é distorção do sistema inteiro de preços, que é justamente o único mecanismo que a humanidade já inventou para alocar recurso escasso sem precisar de czar iluminado em Pequim ou em Brasília.
E não adianta vir com o choro ritual de que o mercado falhou, de que precisa de mais fiscalização, de que o Estado tem que entrar com força total. Toda vez que a solução proposta é mais burocrata com crachá, o resultado prático é mais barreira para o pequeno, mais custo de conformidade para o médio, e mais lobby estruturado para o grande, que paga advogado para contornar regra que o concorrente menor não consegue nem ler. A fraude da Nidec não é argumento contra o livre mercado. É argumento contra o simulacro de livre mercado que opera com a cumplicidade silenciosa de reguladores, auditores e analistas que vivem todos do mesmo bolo.
Quem comprou Nidec acreditando no selo oficial de qualidade acaba de aprender, do jeito mais caro, que selo oficial não substitui ceticismo próprio. Nenhum carimbo de auditor, nenhum relatório de analista, nenhuma nota de agência de rating isenta o investidor da obrigação de pensar com a própria cabeça. O preço de delegar o julgamento a terceiros interessados é, no fim, sempre pago na mínima de dez anos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.