Quatro mil novecentos e quarenta dólares. Esse é o valor que a Saba Capital, fundo de Boaz Weinstein, decidiu empurrar para dentro de ações do Gabelli Healthcare & WellnessRx Trust, e esse é o fato que algum editor achou digno de virar notícia num portal que se vende como fonte de inteligência financeira. Quer dizer, o sujeito que gerencia bilhões de dólares faz uma movimentação do tamanho de um Fiat Mobi usado e isso é tratado como se fosse sinal de alguma coisa. Olha, não é. É ruído disfarçado de sinal, é poeira estatística transformada em manchete porque alguém precisa preencher espaço entre dois anúncios do Google.
O interessante não é o que a notícia diz, é o que ela esconde. Toda vez que um portal publica esse tipo de item, o leitor fica com a sensação vaga de que "algo relevante está acontecendo no mercado", e esse é precisamente o efeito desejado. Cria-se uma névoa de atividade, uma impressão de que fundos sofisticados estão fazendo movimentos milimétricos que o cidadão comum precisa acompanhar para não ficar para trás. É teatro. É o mesmo teatro que faz o aposentado paulistano abrir home broker às sete da manhã para ver se "o Ibovespa está reagindo", quando o verdadeiro movimento que vai triturar sua poupança já aconteceu silenciosamente na mesa do Copom na quarta anterior.
Me diz uma coisa: por que esse tipo de nota existe, afinal? Existe porque o jornalismo econômico contemporâneo abdicou de olhar para o que importa. Olhar para o que importa dá trabalho, cria inimigo, exige coragem para apontar que o problema não é a Saba Capital comprando cinco mil dólares de nada, é o Banco Central imprimindo bilhões para financiar festa fiscal, é regulação sanitária encarecendo medicamento, é tributação asfixiando o setor de saúde privado que esse próprio trust tenta explorar. Mas isso dá processo, dá retaliação, dá assessor de imprensa ligando para a redação. Melhor publicar notinha de SEC filing e fingir que informou alguém.
E tem a trilha do dinheiro, que a notícia não segue porque nenhuma dessas notas segue. O Gabelli Healthcare & WellnessRx Trust é um fundo fechado que vive de arbitragem num setor engordado por décadas de intervenção estatal, patentes prorrogadas por lobby, subsídios cruzados do sistema público americano e barreiras regulatórias que travam concorrência. A Saba, por sua vez, ganha dinheiro apostando contra discounts de fundos fechados, ou seja, lucra com a ineficiência que o próprio arcabouço regulatório cria. Dois agentes extraindo valor de distorções fabricadas por burocrata, e o portal pergunta se o investidor pessoa física deveria "ficar de olho". Deveria ficar de olho é no cofre dele, que a inflação está esvaziando enquanto ele lê bobagem.
O que não se vê nessa notícia é o custo de oportunidade do próprio leitor. Cada minuto gasto decifrando se cinco mil dólares de um fundo americano significam algo é um minuto que ele não gastou entendendo por que o dólar está no patamar que está, por que o juro real brasileiro continua sendo prêmio por desconfiança institucional, por que seu plano de saúde subiu dois dígitos pelo terceiro ano seguido. A desinformação mais eficaz não é a mentira flagrante, é o excesso de informação irrelevante empilhada até sufocar a pergunta que importa. E a pergunta que importa raramente aparece em manchete, porque a resposta dela constrange quem patrocina a página.
Enquanto isso, o verdadeiro mercado opera noutro andar. Fundos de verdade movem posições de verdade por motivos de verdade, e esses motivos nunca aparecem em filing de cinco mil dólares. Aparecem no silêncio, no derivativo exótico, na reunião fechada, no telefonema que não deixa rastro. O cidadão que quer proteger seu patrimônio precisa aceitar que a mídia financeira de varejo é entretenimento, não bússola. Bússola exige ler os fundamentos, acompanhar política monetária, entender incentivos tributários e, sobretudo, desconfiar de qualquer notícia que trate uma formiga como se fosse elefante. Formiga é formiga. Elefante tem gente pisando sob ele e ninguém está noticiando.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.