Sessenta mil e cento e oitenta e dois dólares. Esse foi o valor que o co-CEO da Aptera precisou liquidar em ações da própria empresa, não para diversificar portfólio, não para realizar lucro, não para financiar um novo projeto. Foi para cobrir obrigações fiscais. Quer dizer, o sujeito dirige a companhia, carrega o risco empresarial nas costas, e ainda assim precisa desmontar sua posição acionária para entregar ao governo a parte que o governo decidiu que lhe pertence. E ninguém estranha. Virou paisagem.
Olha, há algo profundamente revelador nesse ritual silencioso que se repete em todas as bolsas do mundo. Executivos vendendo ações para pagar imposto sobre ações que nem venderam voluntariamente, porque o fisco tributa a concessão, tributa o exercício, tributa a valorização, tributa a venda e tributa de novo quando o dinheiro chega. Cada etapa gera um pedágio, e no fim das contas quem produziu valor é obrigado a desfazer sua aposta no próprio negócio para alimentar a entidade que não arriscou um centavo em coisa alguma.
Me diz uma coisa, quem é o verdadeiro sócio majoritário dessa companhia? Não é o co-CEO que vendeu papéis para pagar o Leão. Não são os acionistas que compraram ações no mercado. É o governo, que entra sem capital, não assume risco, não trabalha, não inova, e ainda assim leva sua fatia garantida de cada movimento, de cada ganho, de cada operação societária. O empreendedor é o funcionário fiscal, só que sem salário e sem direito a reclamar.
Siga o dinheiro e você verá uma coisa curiosa. O que se vê é a notícia bonitinha de um executivo cumprindo obrigações fiscais, como se fosse virtude. O que não se vê é o capital que deixou de ser reinvestido na empresa, a posição acionária enfraquecida, o incentivo marginal que vai sendo erodido a cada rodada tributária, até que um dia o sujeito pensa duas vezes antes de aceitar remuneração em ações, antes de empreender, antes de arriscar. A conta não aparece no balanço, mas aparece no PIB que não cresce, no emprego que não se cria, na inovação que vai para outro lugar.
E a solenidade com que a imprensa financeira registra essas vendas forçadas é quase cômica. Dão o número exato, a data, o preço médio, como se fosse um lance de xadrez estratégico. Não é. É um saque autorizado, operado via planilha, legitimado por leis que ninguém leu inteiras e aprovado por parlamentos que não têm a menor ideia do que estão votando. A diferença entre isso e um assalto é que o assaltante tem a decência de admitir o que está fazendo.
No fim, a lição que escapa aos analistas de banco é simples e brutal. Toda vez que você lê sobre um executivo vendendo ações para cobrir impostos, você está lendo sobre a lenta transferência de propriedade produtiva para a mão improdutiva. O capitalismo real, aquele que gera riqueza, está sendo descapitalizado em câmera lenta pelo mesmo Estado que depois virá dizer que é preciso tributar mais porque a arrecadação não fecha. Não fecha porque a galinha dos ovos de ouro está sendo depenada viva, e um dia, não demora, ela para de botar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.