A Eastman Kodak completou 133 anos de existência com um comunicado contábil que é, por natureza, uma confissão pública de falha: em 2025, a empresa declarou que havia "dúvida substancial" sobre sua capacidade de continuar operando. É o tipo de frase que os auditores usam quando querem dizer "pode fechar" em linguagem que não assuste tanto os credores. Para uma empresa que já foi sinônimo de memória, de família, de imagem, foi uma sentença pronunciada quase em silêncio, como se a magnitude do fracasso envergonhasse até quem o declarava.
Mas o capítulo mais revelador não é o da falência de 2012 nem o do alerta de 2025. É o de 2020, quando a Kodak apareceu de repente nos noticiários como candidata a fabricar ingredientes farmacêuticos com um empréstimo federal de 765 milhões de dólares. Em questão de horas após o anúncio, as ações da empresa dispararam centenas por cento. Em questão de dias, surgiram as perguntas sobre quem havia comprado opções antes da notícia ser pública. O empréstimo foi suspenso. A investigação foi aberta. A conversão nunca aconteceu. O que ficou foi o retrato completo de como o Estado opera quando decide "salvar" uma empresa: escolhe uma vencedora com dinheiro que não é dele, cria um escândalo imediato, e sai de cena sem assumir responsabilidade por coisa nenhuma. A Kodak ficou sozinha com a mancha e sem o dinheiro.
O que efetivamente aconteceu depois foi obra de um CEO que se descreve, sem cerimônia, como executivo de colarinho azul. Jim Continenza assumiu a presidência em 2019 e recebeu, no primeiro dia de trabalho, uma ligação do diretor Christopher Nolan pedindo que ele não fechasse a fábrica de acetato, o componente básico do filme cinematográfico. Continenza ouviu. Trocou 90% da liderança da empresa, eliminou mais de 400 milhões de dólares em dívida, cortou 40 milhões em despesas anuais com juros e reorganizou o foco da companhia em torno daquilo que ela realmente sabe fazer: materiais de impressão e química avançada. Não foi glamoroso. Foi trabalho.
O lucro bruto do quarto trimestre mais recente chegou a 67 milhões de dólares, alta de 31% sobre o mesmo período do ano anterior. E por que? Porque filmes premiados com o Oscar em 2026, incluindo "Sinners" e "One Battle After Another", foram rodados em película Kodak. Porque uma geração inteira de jovens consumidores, que nunca viveu a era analógica, está comprando câmeras de filme por vontade própria, sem subsídio, sem campanha do governo federal, sem política pública de "valorização da cultura fotográfica". A demanda surgiu espontaneamente, da mesma forma que toda demanda genuína surge: de pessoas que querem algo e estão dispostas a pagar por isso.
Aqui está a lição que nenhum consultor de reestruturação cobrará 500 dólares a hora para explicar: uma empresa não morre porque o produto é ruim. Ela morre porque perde o contato com o que as pessoas querem, acumula gordura administrativa e dívida improdutiva, e passa a depender de favores que nunca chegam na forma prometida. O remédio não é o empréstimo federal, não é a política industrial e não é o burocrata de Washington decidindo que a Kodak deve fabricar remédios. O remédio é liderança que escuta o mercado, corta o que não funciona e deixa o produto falar. Quando Christopher Nolan ligou pedindo para salvar a fábrica de acetato, estava, sem saber, enviando um sinal de preço mais honesto do que qualquer projeção do Tesouro americano.
A Kodak ainda pode falhar. O caminho é longo, a concorrência é brutal e a nostalgia tem prazo de validade incerto. Mas se sobreviver, vai sobreviver da única forma que uma empresa pode sobreviver com dignidade: sendo necessária para alguém que abre a carteira voluntariamente. O Estado tentou salvar a Kodak e produziu um escândalo. O mercado tentou matá-la e produziu um renascimento. A diferença entre os dois processos não é acidente, é estrutura.
Com informações da CNBC. A análise e opinião são do O Algoz.