Existe uma palavra que os analistas econômicos mainstream adoram usar quando alguém propõe cortar gastos de verdade: "impraticável". Não "errado". Não "imoral". Impraticável. Como se a realidade tivesse votado pelo déficit eterno e o mercado de títulos fosse uma democracia direta. A Argentina entrou nessa conversa com um maçarico e saiu com os números do lado. Inflação que chegou a 211% ao ano em dezembro de 2023 agora está em 31%. Déficit fiscal que se acumulava há catorze anos consecutivos virou superávit de 1,3% do PIB em 2025. PIB que contraiu 1,8% no ano do ajuste cresceu 4,4% no ano seguinte. Alguém vai precisar explicar como algo "impraticável" produziu esses resultados, ou admitir que a palavra nunca significou o que eles diziam que significava.

O caminho foi exatamente aquele que os guardiões do consenso prometeram ser insuportável: corte real de gastos públicos, desregulamentação, eliminação de subsídios, demissão de funcionários estatais e recusa em financiar o déficit com emissão monetária. O custo existiu e foi alto, ninguém precisa fingir que não. A pobreza atingiu 53% no primeiro semestre de 2024, pico doloroso de um ajuste que derrubou o poder de compra real em curtíssimo prazo. Mas aqui está o fato que os críticos evitam: essa pobreza era a herança da política que eles defendiam, não o produto das reformas. A Argentina já estava empobrecida antes de Milei aparecer. O que o ajuste fez foi parar a sangria, não causá-la.

O que chama atenção não é só o número fiscal. É a velocidade da recuperação social. Em dezoito meses, a pobreza caiu de 53% para 28%, o menor patamar desde 2018. Isso é o que acontece quando você para de destruir a moeda com emissão descontrolada: os salários voltam a valer alguma coisa. Inflação não é uma "política de crescimento para os pobres", por mais que durante décadas o populismo latino-americano tenha vendido impressora como instrumento de justiça social. Inflação é imposto regressivo. Corrói mais rápido o dinheiro de quem não tem aplicação financeira do que o de quem tem. A Argentina reaprendeu isso da pior forma possível, e agora está recolhendo os cacos com uma política monetária que respeita este fato elementar.

Nas eleições de outubro de 2025, com voto obrigatório e 32% de abstenção recorde, La Libertad Avanza conquistou 40,8% dos votos, enquanto o peronismo ficou em 31%. Isso significou que a oposição perdeu a capacidade de derrubar os vetos presidenciais por dois terços. Leia de novo: o país que havia elegido um presidente "radical" em pleno caos econômico o reelegeu politicamente no meio do ajuste. Historicamente, reformas fiscais duras são suicidas eleitorais. Perón inventou uma categoria inteira de demagogia baseada nessa premissa. A eleição de 2025 sugere que talvez o eleitorado argentino tenha ficado maduro o suficiente para distinguir causa de consequência, coisa rara em democracias acostumadas ao almoço grátis.

Há um problema que os entusiastas não devem varrer para debaixo do tapete: a inflação mensal está estagnada entre 2,8% e 2,9% há oito meses consecutivos. Isso equivale a cerca de 40% ao ano se o patamar se mantiver, que ainda é mais do que o tolerável para uma economia que precisa de crédito barato e previsibilidade para investir. As reservas internacionais líquidas seguem frágeis em torno de seis bilhões de dólares. O pacote de vinte bilhões do FMI ajudou, mas não resolve a questão estrutural de uma economia que precisa reconstruir credibilidade institucional décadas depois de ter-la destruído sistematicamente. O ajuste estabilizou. O crescimento ainda está por ser conquistado, e são coisas diferentes.

Mesmo assim, o que aconteceu na Argentina é um documento histórico que os defensores do Estado gastador vão ter muita dificuldade em ignorar. Não é teoria. Não é modelo. É a sequência concreta de ações e resultados de um governo que fez o oposto do que os peritos recomendam há décadas e obteve resultados melhores que os peritos obtinham. Qualquer análise honesta precisa começar por aí. O resto é desculpa.

Com informações do Epoch Times. A análise e opinião são do O Algoz.