A Maverick Capital, fundo texano que se vende como faro fino para tecnologia disruptiva, acaba de descarregar US$ 28,9 milhões em ações da Infleqtion, a queridinha da computação quântica que vinha sendo empurrada goela abaixo do investidor de varejo como a próxima revolução industrial. Não houve nota de despedida, não houve comunicado emocionado sobre realocação estratégica de portfólio. Houve venda. E venda em volume que machuca. Quem entende do riscado sabe ler esse tipo de mensagem sem precisar de tradutor simultâneo.
O setor quântico virou nos últimos dois anos o equivalente financeiro daquelas promessas de carro voador que apareciam nas revistas dos anos 1950. Toda semana surge um anúncio grandioso, toda semana um executivo de gravata azul aparece em painel de Davos falando sobre qubits como se estivesse explicando o fogo aos cavernícolas. E toda semana investidores ingênuos compram a passagem para uma viagem cujo destino ninguém ainda viu no mapa. A Infleqtion era uma das estrelas dessa constelação. Era. Quando um fundo do calibre da Maverick liquida posição desse tamanho, o que se vê é uma coisa; o que não se vê é o relatório interno que motivou a saída.
E aqui mora a parte interessante, a parte que ninguém da imprensa econômica especializada tem coragem de escrever. O dinheiro institucional opera com informação que o pequeno investidor não tem, com modelos que o pequeno investidor não consegue rodar, com acesso que o pequeno investidor jamais terá. Quando o institucional sai, sobra o varejo segurando o mico, geralmente convencido por algum analista de banco que aquilo ali é oportunidade histórica de compra na baixa. É sempre assim, foi assim com as ferrovias no século XIX, foi assim com a internet em 1999, foi assim com cannabis em 2018, foi assim com SPACs em 2021. O figurino muda, o roteiro é idêntico.
Há ainda uma camada mais profunda que merece atenção. A computação quântica brasileira e mundial está sendo financiada em volumes obscenos por programas estatais, fundos soberanos e bancos de desenvolvimento que jogam dinheiro de contribuinte sem nenhum compromisso com retorno mensurável. Cria-se assim um mercado artificial onde empresas sem produto comercial viável conseguem captação bilionária porque o burocrata de plantão decidiu que aquilo é o futuro. O fundo privado entra, ordenha o crescimento inflado pelo subsídio, vende para quem chegou atrasado, e sai assobiando. O custo final dessa festa cai sempre no mesmo lugar, no bolso de quem trabalha e paga imposto sem direito a fatia do bônus.
A pergunta que ninguém faz nos relatórios oficiais é simples. Por que um fundo que estudou a empresa por dentro, que tinha assento privilegiado para entender os números reais, decidiu que vale mais a pena ter quase trinta milhões em caixa do que continuar apostando na narrativa? A resposta está justamente naquilo que o release de imprensa não conta. Realidade técnica e narrativa de captação são duas coisas muito diferentes, e quem confunde uma com a outra costuma terminar a história contando as moedas que sobraram.
O mercado é cruel justamente porque é honesto no longo prazo. Pode-se enganar muita gente por muito tempo com prospectos coloridos e gráficos de adoção tecnológica subindo na diagonal, mas chega o dia em que o caixa precisa fechar, em que o produto precisa funcionar, em que o cliente precisa pagar pelo serviço. Até lá, vende quem chegou cedo, compra quem leu manchete. A Maverick chegou cedo, leu o que tinha que ler, e foi embora. Quem ficar segurando o papel agora que não reclame depois do barulho que faz uma bolha quando finalmente estoura.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.