O fato é simples e desconfortável. James Litinsky, presidente e CEO da MP Materials, despejou no mercado cerca de US$ 26,2 milhões em papéis da própria companhia. Não foi uma venda discreta de fim de trimestre para pagar imposto, foi um saque de quem conhece o calendário melhor do que ninguém. E o calendário, convenhamos, está generoso: a ação da MP virou queridinha de Wall Street depois que o governo americano resolveu tratar terras raras como se fossem o santo graal da geopolítica, despejando contratos, garantias de preço mínimo e participação acionária estatal na empresa. O CEO, que não nasceu ontem, fez o que qualquer ser humano racional faria diante de um preço inflado por subsídio: vendeu.

Quer dizer, aqui está a beleza obscena do arranjo. Quando o Departamento de Defesa entra como sócio, quando o Tesouro garante piso de preço para neodímio e praseodímio, quando o discurso oficial repete que "precisamos quebrar a dependência da China", o que acontece com a ação de uma mineradora americana de terras raras? Sobe. Sobe não porque a empresa descobriu uma jazida nova, não porque a margem operacional dobrou, não porque o consumidor final está comprando mais ímãs. Sobe porque o contribuinte americano, sem ser consultado, virou comprador compulsório do produto. E o insider, esse sim foi consultado pelo próprio bolso, sabe exatamente quando o preço da festa atinge o teto.

Olha, ninguém precisa demonizar o sujeito. Ele cumpriu prazos de divulgação, fez tudo dentro da lei, e qualquer um faria igual. O problema não é o homem, é o sistema que ele está jogando. Há um nome antigo para isso, e ele não envelheceu: capitalismo de compadrio. A empresa privada na fachada, o cofre público na retaguarda, o lobista no meio do caminho organizando o tráfego. Cria-se uma "indústria estratégica" por decreto, infla-se a capitalização por canetada, e o executivo que estava lá na hora certa transforma papel em iate. O custo, esse fica diluído nos impostos, na inflação e na ficção contábil de que "investimento em segurança nacional não tem preço".

Me diz uma coisa: se terras raras fossem mesmo o negócio do século por mérito puramente econômico, precisariam de garantia de preço mínimo do governo? Precisariam de o Pentágono virar acionista? A resposta honesta é que o mercado já teria atraído capital sozinho, sem precisar fantasiar a operação de "missão patriótica". O que o subsídio faz é exatamente o oposto do que promete: ele não cria competitividade, ele cria dependência da próxima rodada de subsídio. E quando o ciclo político mudar, quando o próximo governo cortar o programa ou a China retomar dumping agressivo, quem vai segurar o prejuízo? O contribuinte, claro. O CEO já saiu com os US$ 26 milhões na conta.

Há uma lição mais ampla escondida nessa venda específica, e ela vale para qualquer setor que recebe carinho estatal, do etanol às montadoras, da siderurgia aos chips. Quando o Estado escolhe vencedores, ele não está corrigindo falha de mercado, está fabricando ganhadores artificiais e perdedores invisíveis. Os ganhadores vão à TV de gravata falar em "soberania". Os perdedores são as empresas que não receberam o cheque, os consumidores que pagam preço inflado, e as futuras gerações que herdarão a dívida usada para bancar a brincadeira. A diferença entre uma economia de mercado e uma economia de compadrio é exatamente essa: na primeira, vende-se porque criou-se valor; na segunda, vende-se porque sabe-se onde a impressora vai bater.

Os papéis da MP podem subir mais, podem cair, podem virar manchete por meses. O que não muda é o princípio: toda vez que um executivo embolsa milhões enquanto o discurso oficial fala em "interesse nacional", há um contribuinte sendo ordenhado em silêncio do outro lado do balcão. O insider vende no topo porque conhece o topo. O cidadão comum compra no varejo porque acreditou no marketing. E o governo, esse fica com o melhor papel da peça, o de produtor executivo que distribui o lucro sem nunca aparecer na bilheteria.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.