O que o governo húngaro construiu ao longo de quinze anos não foi uma alternativa ao liberalismo econômico. Foi o liberalismo econômico desmontado peça por peça, substituído por um sistema em que o mercado existe apenas como cenário de fundo enquanto os contratos, os subsídios e as regulações são distribuídos conforme a lealdade política. O déficit fiscal húngaro está caminhando para 5,2% do PIB em 2026. O crescimento econômico não passou de 0,3% em 2025. A inflação permanece entre as mais altas da União Europeia, projetada em 4,5% ao ano, esmagando o poder de compra dos mesmos trabalhadores que o governo diz proteger. Esses números não são acidente, são resultado.

Houve um momento, lá por 2014, em que os números pareciam dar razão ao modelo. O PIB crescia quase 5%, o desemprego caía, o FMI havia sido dispensado com pompa e circunstância. A narrativa funcionou, porque as narrativas sempre funcionam enquanto a conta não chega. O que ninguém quis ver, ou o que poucos tiveram coragem de dizer em voz alta, é que economias crescem quando há investimento produtivo real, e que crescimento comprado com controle de setores estratégicos, taxação seletiva dos inimigos e proteção ilimitada dos amigos é como construir uma casa sobre areia. Parece sólido até a primeira chuva forte. A chuva chegou.

O mecanismo é sempre o mesmo, em qualquer latitude, em qualquer século. O governo escolhe quem merece prosperar. Distribui licenças, contratos públicos, isenções regulatórias. Os favorecidos prosperam não porque produzem melhor, mas porque têm o número certo na agenda. Os competidores que não têm esse número enfrentam tributos especiais, auditorias convenientes, regulações cirúrgicas. O mercado passa a funcionar não como sistema de descoberta de preços e alocação de recursos, mas como prêmio de fidelidade. Quando isso acontece, os preços param de dizer a verdade. Os recursos vão para os conectados, não para os competentes. E o resultado aparece na inflação, no déficit, no forint que perdeu 7% só em 2024 frente ao euro. O custo do compadrio sempre aparece, a questão é apenas onde e quando.

O Financial Times publicou sua análise chamando o modelo de desastre, e nesse ponto específico o jornal londrino está certo, embora quase certamente pelas razões erradas. Para o FT, o problema é que Orbán não seguiu suficientemente as recomendações das instituições de Bruxelas, não se alinhou ao consenso fiscal europeu, não adotou as ortodoxias que o establishment financeiro continental considera adequadas. Essa é uma crítica que acerta o alvo por sorte. O modelo húngaro falhou não porque se desviou das recomendações da Comissão Europeia, mas porque substituiu um mercado genuíno por um mercado de aparências, onde os preços mentem e os oligarcas prosperam independente de qualquer eficiência real. Você pode discordar do euro, dos burocratas de Bruxelas e da política monetária do BCE, e ainda assim entender que proteger um setor bancário nacional através de taxação punitiva dos concorrentes estrangeiros não é soberania econômica: é pilhagem com bandeira.

Há uma ironia que o observador apressado costuma perder. Orbán passou anos se apresentando como o grande inimigo do globalismo, do cosmopolitismo financeiro, das elites desconectadas do povo. E construiu, metodicamente, sua própria elite, tão desconectada quanto qualquer outra, porém muito mais cara por ser sustentada por recursos públicos. Os programas habitacionais, os cortes de imposto de renda para mães, os bônus para militares e policiais anunciados às vésperas das eleições de abril de 2026 somam quase 2% do PIB em novos gastos. Não existe almoço grátis em nenhum lugar do universo. O que existe é a conta que ainda não veio, o déficit que vai precisar ser financiado, o forint que vai absorver parte dessa pressão, e o trabalhador húngaro que vai pagar a sobremesa que não pediu.

O que a Hungria demonstra, com uma clareza pedagógica que dificilmente se encontra em qualquer manual, é que o problema do intervencionismo não é ideológico, é estrutural. Não importa se o governo que intervém se chama socialista ou soberanista, se agita bandeiras de esquerda ou de direita. Quando o Estado decide quem merece ganhar, os que merecem ganhar passam a ser os que têm acesso ao Estado, não os que produzem valor real. A distorção se acumula silenciosamente, durante anos, até que os dados começam a gritar o que a retórica insistiu em calar. O PIB de 0,3% é esse grito. O déficit de 5% é esse grito. Quinze anos de "modelo alternativo" e a Hungria cresce menos que a metade dos seus vizinhos. Há lições que só a realidade tem autoridade para dar.

Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.