Estreia neste mês de junho na Netflix a minissérie Eu Vou Te Encontrar, adaptação de um romance do escritor americano Harlan Coben, autor que vendeu mais de oitenta milhões de exemplares mundo afora sem precisar pedir licença ao comitê editorial de plantão. A trama gira em torno de um pai condenado pela morte do próprio filho que, anos depois, encontra indícios de que o garoto pode estar vivo. A premissa é simples, quase banal, e justamente por isso funciona. Há mais de dois mil anos um certo filósofo grego observou que toda boa narrativa precisa de reconhecimento e reviravolta. O resto é decoração.

A escolha da Netflix tem menos de inspiração artística e mais de cálculo frio de planilha. Coben é uma franquia ambulante, suas adaptações anteriores na plataforma renderam audiência consistente, e em tempos de assinantes fugindo para concorrentes mais baratos a empresa precisa de garantia, não de experimento. É curioso observar como a mesma plataforma que durante anos torrou bilhões em projetos militantes para agradar críticos de Brooklyn agora corre atrás do velho e bom suspense burguês, aquele que entretém sem dar lição de moral. O mercado, esse velho conselheiro implacável, cobrou a conta.

Quem acompanha o catálogo percebe o movimento. Junto com a minissérie do Coben chega A Testemunha, um documentário baseado em caso real, e uma fileira de produções que apostam no enredo clássico de mistério, perseguição e reviravolta. É a mesma fórmula que sustentou o folhetim do século dezenove, o rádio dos anos quarenta, a televisão dos anos oitenta. Mudou a tela, mudou o algoritmo, não mudou o homem. O ser humano continua querendo a mesma coisa que queria quando se sentava em volta da fogueira para ouvir o ancião contar como o herói escapou da fera. Quem esqueceu disso quebrou.

Há uma lição embutida nessa virada de timão que vai muito além da Netflix. Durante quase uma década, executivos de Hollywood foram convencidos por consultorias de diversidade e departamentos de relações públicas de que o público estava ansioso por ser reeducado através do entretenimento. Gastaram fortunas para descobrir que não, o público quer suspense, romance, comédia, drama familiar, terror, ação. Quer arte, no sentido antigo da palavra, técnica a serviço de um propósito humano reconhecível. E aceita pagar bem por isso, desde que não seja obrigado a engolir doutrina junto com a pipoca.

O caso Coben é sintomático também por outro motivo. O escritor não é nenhum gênio das letras, ninguém o confunde com os grandes prosadores do século passado, e ele próprio admite isso com a humildade que falta a tanto autor premiado. O sujeito faz literatura de entretenimento, escreve para ser lido no avião, no metrô, na poltrona depois do jantar. E justamente por respeitar o leitor, por entregar exatamente aquilo que prometeu na capa, construiu um império que sustenta dezenas de adaptações simultâneas em várias plataformas. Há mais dignidade nesse ofício honesto do que em mil roteiristas pretensiosos que produzem panfleto disfarçado de roteiro.

O recado para a indústria do streaming é claro como água de nascente. O brasileiro, o americano, o europeu, o asiático, todos pagam assinatura mensal querendo escapar por uma hora da própria realidade, não para receber sermão sobre como devem pensar, votar ou se identificar. Quem entender essa verdade elementar continuará no jogo. Quem insistir em transformar plataforma de entretenimento em púlpito ideológico vai descobrir, da pior forma, que o assinante tem botão de cancelamento e não tem nenhuma obrigação moral de financiar a própria reeducação.

Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.