O Virtual OS Museum não é um prédio, não tem porteiro cobrando ingresso, não vende camiseta na saída. É uma coleção digital com mais de mil e setecentas instalações distintas de mais de seiscentos sistemas operacionais escritos para mais de duzentas e cinquenta plataformas diferentes, todos disponíveis para download e execução via emulação no computador de qualquer um. Coherent, Flex OS, Lisa, o Mac OS original, dezenas de variantes obscuras de Unix, sistemas que rodavam em máquinas que hoje caberiam numa gaveta de cozinha. Está tudo lá, gratuito, acessível, preservado.

É curioso pensar que precisamos de um museu para lembrar que o software já foi, um dia, um artefato de engenharia genuína. Cada um daqueles seiscentos sistemas representa uma decisão arquitetônica feita por alguém que entendia o que estava fazendo, que conhecia a máquina parafuso por parafuso, que escrevia código sabendo que cada byte custava caro e cada ciclo de clock era precioso. Não havia framework para esconder a ignorância, não havia camada de abstração para terceirizar a competência. Ou se sabia programar, ou se ia vender sapato.

Compare aquela paisagem com o pântano atual, onde um aplicativo de calculadora consome trezentos megabytes de memória, baixa quarenta dependências de servidores em três continentes diferentes e ainda exige permissão para acessar a câmera. O sistema operacional moderno virou uma espécie de catedral barroca onde ninguém mais sabe direito onde fica a porta. As empresas que hoje dominam o mercado herdaram catedrais construídas por outros e as transformaram em shopping centers com vigilância integrada.

A iniciativa de preservar esses sistemas tem um valor que vai muito além da nostalgia tecnológica. É um arquivo civilizacional, uma biblioteca de Alexandria do código binário, a garantia de que quando os herdeiros administradores terminarem de transformar tudo em assinatura mensal com termos de uso de quarenta páginas, ainda restará algum vestígio do que significava construir uma ferramenta com propósito. Quem controla o passado controla o futuro, e quem apaga o passado simplesmente decreta o futuro que lhe convém.

Há também uma dimensão pedagógica que merece atenção. Um estudante brasileiro de computação hoje aprende a programar dentro de uma jaula de abstrações douradas, sem nunca ter encostado num sistema que exigisse compreender o que de fato acontece debaixo do capô. Rodar uma versão original do Mac OS de mil novecentos e oitenta e quatro num emulador é uma aula de humildade e de história em dose dupla. Mostra de onde viemos, mostra o que perdemos pelo caminho e, sobretudo, mostra que software bom cabe em poucos quilobytes quando feito por quem sabe.

O melhor de tudo é que esse acervo existe sem patrocínio bilionário, sem comitê de diversidade arquitetônica, sem termo de uso vendendo os dados de quem clica. Funciona pela mesma razão que a Wikipédia funciona, pela mesma razão que o Linux funciona, pela mesma razão que metade da infraestrutura da internet funciona: gente apaixonada construindo coisa boa de graça enquanto os trilionários discutem em painéis qual será o próximo modelo de assinatura para alugar o ar que respiramos. A revolução real continua sendo aberta, descentralizada e gratuita. Quem ainda não entendeu isso vai morrer pagando mensalidade para usar o próprio teclado.

Com informações da The Verge. A análise e opinião são do O Algoz.