Quase metade dos jovens entre 18 e 29 anos nos Estados Unidos mora com os pais. Não por escolha estética, não por apego à família, mas porque o aluguel médio subiu quase 29% nos últimos anos enquanto a renda cresceu 22%. São números que parecem saídos de uma crise do século XIX, mas estão acontecendo no país mais rico da história humana. Quarenta e um por cento dessa geração não chega ao fim do mês com saldo positivo, e a dívida média per capita supera 94 mil dólares, bem acima de qualquer geração anterior na mesma faixa etária. Quando esses dados aparecem na mídia, o diagnóstico é sempre o mesmo: os jovens gastam demais, não poupam, não têm disciplina, não sabem o que fazem com o dinheiro. É a narrativa mais conveniente que existe, porque desloca a culpa do sistema para o indivíduo, e o indivíduo não tem bancada no Congresso para se defender.
Me diz uma coisa: quem lucra quando jovens não conseguem comprar casa, quando ficam presos em aluguel por décadas, quando precisam de financiamento estudantil que vai durar quinze anos? Os bancos que emitem o crédito. Os fundos que compram imóveis no atacado e alugam no varejo. As universidades que cobram mensalidades estratosféricas sabendo que o governo garante o empréstimo de qualquer jeito. E, acima de todos, os governos que financiam seus déficits crônicos emitindo moeda, repassando a conta para quem tem o menor patrimônio acumulado para se proteger. A inflação nunca é acidente. É a forma de tributação mais regressiva que existe, porque atinge com mais força quem tem menos ativos reais para usar como escudo. O jovem que acabou de entrar no mercado de trabalho não tem imóvel, não tem ações, não tem ouro: tem salário em papel. E o papel encolheu.
Existe um tipo de opressão que não usa algemas. Ela usa benefícios. Usa subsídios de moradia, perdão de dívida estudantil, auxílios emergenciais, crédito subsidiado. Cada programa tem nome bonito e justificativa razoável, e cada um entrega ao Estado um pouco mais de controle sobre a vida de quem recebe. Uma geração que não consegue se sustentar sozinha não tem barganha real com o poder, não tem independência para discordar, não tem capacidade de dizer não quando o preço do não é a perda do benefício. Não foi necessária nenhuma conspiração para produzir este resultado: bastou a lógica natural de um sistema que expande o governo, expande o crédito, expande a dependência, e depois apresenta a expansão como solução para os problemas que ela mesma criou. O Estado que infantiliza promete eternamente a tutela que nunca permite a maioridade.
Quer dizer, a resposta dessa geração ao caos não é surpreendente quando você entende a lógica interna dela. Quando o trabalho honesto não entrega a casa, o carro e a família que a geração anterior conseguiu com trabalho honesto, a racionalidade muda. O jogo, as apostas esportivas, as criptomoedas, os esquemas de renda rápida: não são patologias morais, são respostas adaptativas a um sistema de preços distorcido. Quando a poupança é punida pela inflação, poupar é irracional. Quando a renda do trabalho não cobre o custo de vida, especular é racional. Você pode julgar o apostador compulsivo de 24 anos que perdeu o aluguel em mercados de predição, mas antes de julgá-lo pergunte quem distorceu os incentivos ao ponto de apostar parecer mais razoável do que trabalhar. A resposta a essa pergunta tem endereço e tem nome, mas a imprensa prefere falar do apostador.
A saída não é coletiva, não vem de nenhuma política pública e não tem data de entrega. Vem de jovens que aprendem a enxergar o mecanismo antes de ser engolidos por ele: que entendem que inflação é roubo com outra etiqueta, que dívida subsidiada é armadilha com laço bonito, que dependência do Estado é troca de liberdade por segurança numa negociação em que o Estado sempre ganha. A rebeldia genuína neste momento histórico não é protestar na rua pedindo mais intervenção governamental: é fazer o oposto do que o sistema incentiva. Poupar em ativos reais. Evitar dívida de consumo. Construir habilidades que gerem valor real, não credenciais que gerem dívida. É quase cômico que o ato mais radical que um jovem pode praticar hoje seja aquele que os avós praticavam sem nem saber que era radical.
A geração Z não está doente por fraqueza de caráter. Está doente porque bebeu água envenenada durante anos e ninguém disse que era veneno, apenas serviu mais. O diagnóstico correto não está nos programas de bem-estar financeiro patrocinados pelo mesmo governo que causou o problema, e definitivamente não está nas manchetes que culpam o jovem pela conta que outro assinou. Está em entender com precisão de onde vem a distorção, quem se beneficia dela e o que fazer individualmente para não ser mais matéria-prima desse arranjo. Conhecimento é o único ativo que a inflação não corrói, e é exatamente o único que o sistema não tem interesse em distribuir.
Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.