Salão pomposo do Palácio. O ESTADO, gordo, capa vermelha esvoaçante, olhos brilhando de ganância, sobe num pódio dourado com a faixa "CBS + IBS = LIBERDADE". Câmeras de TV apontadas. Burocratas idênti
O ESTADO: "Cidadãos! Após 8 anos de transição, a reforma tributária FINALMENTE simplificou tudo! Agora é só UM imposto!"
O ESTADO entrega ao CONTRIBUINTE (magro, olheiras, terno surrado) um livrinho fino e brilhante chamado "LEI COMPLEMENTAR". Atrás do Estado, uma porta entreaberta revela uma montanha colossal de tomos
O CONTRIBUINTE: "Só isso?" O ESTADO (sorriso oleoso): "Só isso... e os anexos."
Avalanche de papelada soterrando o CONTRIBUINTE. Apenas a mão dele aparece para fora da pilha, segurando uma calculadora em chamas. A INFLAÇÃO surge ao fundo, elegante de vestido vermelho, soprando um
BUROCRATA 1: "Alíquota efetiva: 28%." BUROCRATA 2: "Mais o split payment." BUROCRATA 3: "Mais o cashback que nunca volta."
O CONTRIBUINTE emerge da pilha, cabelos brancos, barba até o chão, segurando o livrinho original agora amarelado. O ESTADO, ainda no pódio, mais gordo, vestindo coroa nova, anuncia algo num megafone.
O CONTRIBUINTE (olhar morto pra câmera): "Eles simplificaram tanto que agora eu preciso de DOIS contadores pra entender por que devo mais."
Anunciaram com pompa de coroação que o sistema tributário brasileiro foi simplificado. Trocaram cinco siglas por duas, prometeram alíquota única, transparência, neutralidade. O resultado prático? Um compêndio de leis complementares, regulamentos infraconstitucionais, comitês gestores e instâncias paralelas que tornaram a velha selva tributária uma floresta amazônica em comparação. Quando o Estado fala em simplificar, prepare a carteira: é o eufemismo preferido de quem precisa justificar mais arrecadação sem provocar revolta imediata.
Follow the money: a alíquota efetiva projetada já flerta com as mais altas do planeta, o tal cashback para pobres virou bilhete de loteria condicionado a cadastros, e o split payment transformou cada empresário num cobrador não remunerado do fisco. Quem ganha? O Leviatã, que agora arrecada antes mesmo do dinheiro circular. Quem perde? O sujeito que produz, que contrata, que sustenta o circo todo e ainda escuta no jornal que precisa contribuir mais para fechar uma conta que nunca fecha porque o ralo é o próprio aparato que pretende consertá-la.
Simplificar de verdade seria cortar gasto, cortar privilégio, cortar regulamento. Mas isso exigiria que a Besta emagrecesse, e Besta nenhuma faz dieta voluntária. Ela só engorda em silêncio, fantasiada de modernidade. A análise e opinião são do O Algoz.
