QUADRO 1

Salão pomposo com lustres dourados. O ESTADO, gordo, terno escuro, capa vermelha esvoaçante, sobe ao palanque segurando um livro gigantesco encadernado em couro com a inscrição "REFORMA TRIBUTÁRIA — S

O ESTADO: "Cidadãos! Acabaram os dias da confusão! Agora é tudo unificado, transparente, simples!"

QUADRO 2

Close no ESTADO abrindo o livro gigante. As páginas se desdobram em sanfona, atravessam a sala, saem pela porta, descem a rua. Um BUROCRATA mede com trena: "47.000 páginas, senhor. Edição resumida." O

O ESTADO: "Veja! Antes eram cinco impostos. Agora é UM IMPOSTO ÚNICO!" BUROCRATA (sussurrando): "...dividido em dezessete subimpostos com alíquotas regionais variáveis, senhor."

QUADRO 3

Cozinha humilde. O CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, camiseta regata furada, abre o boleto na mesa. O papel desce até o chão, sai pela porta, atravessa o quintal. Ele segura uma calculadora que

CONTRIBUINTE: "Mas... eu já pagava ICMS, ISS, PIS, COFINS, IPI..." BOLETO (com voz própria, em letras saindo do papel): "Agora você paga TUDO ISSO + a CBS, o IBS, o IS e a 'Contribuição de Transição' até 2078."

QUADRO 4

Rua escura. O ESTADO passa de limusine blindada, jogando confete de notas pela janela enquanto a INFLAÇÃO, ao lado dele, devora as notas como se fossem algodão-doce. O CONTRIBUINTE está parado na calç

CONTRIBUINTE (sem emoção, olhando direto pro leitor): "Eles chamam de 'simplificar' porque 'roubar com mais etapas' não cabia no marketing."

Toda vez que o Soberano anuncia uma "simplificação tributária", o cidadão deveria trancar a porta, esconder a carteira e checar se o rim ainda está no lugar. A palavra é mágica: serve para vender ao povo o que, na prática, é mais um andar acrescentado ao edifício de extração que já bloqueia o sol há décadas. Trocam-se siglas, criam-se "períodos de transição" que duram gerações, e ao final do truque a carga tributária nunca diminui. Curiosamente, ela só sabe andar para um lado.

Follow the money: quem ganha com 47 mil páginas de regulamento? Não é o pequeno comerciante, que precisa contratar três contadores para não ir preso por erro de vírgula. Não é o consumidor, que paga embutido em cada pão francês. Ganha o exército de fiscais, o cartório das exceções, o lobista que comprou seu parágrafo específico, e principalmente A Besta, que precisa de complexidade para que ninguém consiga somar exatamente quanto está sendo levado. Imposto que se entende é imposto que se contesta. Daí a vocação enciclopédica do Leviatã.

A piada cruel é que, enquanto o Contribuinte calcula no guardanapo se ainda sobra dinheiro pro botijão, a Inflação janta o que sobrou e o Estado brinda em salão climatizado custeado pelo mesmo botijão que faltou. Simplificar, no dicionário deles, é sinônimo de aprofundar. E o povo aplaude, porque foi ensinado que pagar é virtude e questionar é crime.

A análise e opinião são do O Algoz.