A Reforma Tributária Que Simplificou Tudo (Em 4.782 Páginas)
QUADRO 1

Salão pomposo, cortinas vermelhas, brasão dourado na parede. O ESTADO, obeso, de terno escuro e capa vermelha esvoaçante, sorriso largo, segura um tomo gigantesco intitulado "REFORMA TRIBUTÁRIA - EDIÇ

O ESTADO: "Cidadãos! Unifiquei cinco impostos em UM só! A era da simplicidade começa HOJE!"

QUADRO 2

Close no CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, camisa surrada, segurando um boleto que se desenrola até o chão como um pergaminho medieval. Ao fundo, A INFLAÇÃO, vestido vermelho justo, cabelo de f

CONTRIBUINTE (lendo, suor escorrendo): "CBS... IBS... Imposto Seletivo... Contribuição de Transição... Taxa de Convergência... Adicional de Harmonização..."

QUADRO 3

O CONTRIBUINTE, agora diante de um balcão kafkiano altíssimo, encara um BUROCRATA empoleirado lá em cima. Montanhas de papel sobem até o teto. Uma placa diz: "GUICHÊ 1 DE 17.842". Um segundo BUROCRATA

CONTRIBUINTE: "Mas... se é UM imposto só, por que tenho que preencher 47 formulários?"

QUADRO 4

O ESTADO, agora ainda mais gordo, sentado num trono de boletos, capa vermelha arrastando no chão, mastiga uma nota de dinheiro como se fosse pipoca. Os olhos brilham em cifrões. O CONTRIBUINTE, em pri

CONTRIBUINTE (quebrando a quarta parede, olhando para o leitor): "Eles simplificaram tanto que agora só sobra UMA coisa no meu bolso. E até essa, já tem dono."

Prometeram a grande simplificação. O que chegou foi um calhamaço de milhares de páginas, dezenas de regulamentações complementares e um novo vocabulário tributário que exige dicionário, advogado e terapeuta. A promessa era desburocratizar. O resultado foi criar uma indústria inteira de consultorias para traduzir a "simplicidade" aos mortais que ousam empreender neste país.

A mágica é sempre a mesma: trocam o nome dos impostos, prometem que a carga não aumenta, juram de pés juntos que agora é mais fácil, e no ano seguinte descobrem que precisam de uma pequena contribuição emergencial de transição. Siga o dinheiro e você encontrará o de sempre: o cidadão produtivo financiando um aparato que consome mais do que entrega, enquanto o andar de cima discute se a alíquota deve ter três ou quatro casas decimais. A inflação, sócia silenciosa, cuida do que o fisco esquecer.

Nenhum governo na história simplificou um sistema tributário para arrecadar menos. Quando o Leviatã fala em reforma, segure a carteira. Quando ele jura que é pelo seu bem, segure com as duas mãos. A análise e opinião são do O Algoz.