QUADRO 1

Palco majestoso, cortinas vermelhas, holofotes. O ESTADO, gordo e suado dentro do terno escuro, capa vermelha esvoaçante, segura um microfone dourado. Atrás dele, um telão gigante exibe: "REFORMA TRIB

O ESTADO: "Cidadãos! Após décadas de luta, eu, generosamente, SIMPLIFIQUEI os impostos! Agora é tudo um só: o IBS-CBS-IS-CSO-CIDE-PIX-RESPIRO!"

QUADRO 2

O CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, camisa puída, parado na calçada com um envelope marrom enorme nas mãos. Do envelope escapam centenas de páginas. Ao fundo, um caminhão dos Correios despeja m

CONTRIBUINTE (lendo, suando frio): "Artigo 8.412, parágrafo XII: o imposto único incide sobre... outros sete impostos não unificados..."

QUADRO 3

Repartição pública kafkiana. Corredores infinitos com BUROCRATAS idênticos carimbando. Ao fundo, A INFLAÇÃO, mulher elegante de vestido vermelho, dedos compridos derretendo uma nota de R$ 200 como se

A INFLAÇÃO (sedutora): "Querido, o povo nem percebeu que a alíquota subiu de 27% para 33%..." O ESTADO: "Eles ESTÃO comemorando, meu amor. Disseram na TV que ficou mais simples!"

QUADRO 4

Mesa de jantar humilde. O CONTRIBUINTE serve à família um único grão de arroz dividido em quatro pratos. Em cima da mesa, o boleto do "Imposto Único Simplificado" tem o tamanho de uma lista telefônica

FILHO: "Pai, se isso aqui é o imposto SIMPLIFICADO, como era o complicado?" CONTRIBUINTE (olhar mil quilômetros): "Filho, o complicado era quando a gente ainda tinha o que comer."

Toda vez que o Leviatã anuncia uma "reforma tributária", o cidadão deveria conferir se ainda tem rins, fígado e a alma. A retórica oficial vende simplificação, unificação, modernidade. A realidade entrega o de sempre: nomes novos para o mesmo saque, com a cortesia adicional de uma alíquota um pouquinho maior, escondida no parágrafo 12 do artigo 8.412 de um manual que ninguém vai ler, exceto os escritórios que lucram exatamente com a ininteligibilidade do sistema.

Follow the money: quem ganha com a "simplificação" não é a padaria da esquina, nem o motorista de aplicativo, nem a família que divide um pacote de arroz em quatro. Quem ganha é a máquina que precisa de mais combustível para continuar engordando, são os consultores credenciados, os escritórios de lobby, os fabricantes de softwares fiscais obrigatórios. A complexidade tributária não é um bug do sistema. É o sistema. Cada vírgula incompreensível é uma porta giratória para o privilégio.

E o cidadão? Esse continua no papel de sempre: o trouxa universal, financiador involuntário do espetáculo. Aplaude na inauguração, paga na entrega, e ainda agradece quando o Soberano sorri da varanda do iate dizendo que está tudo sob controle. A análise e opinião são do O Algoz.