QUADRO 1

Salão dourado e pomposo. O ESTADO em cima de um palanque de mármore, capa vermelha esvoaçando, sorriso largo mostrando dentes amarelados. Atrás dele, um banner gigante: "REFORMA TRIBUTÁRIA 2026 — MAIS

ESTADO: "Cidadãos! Acabamos com a confusão! Agora existe apenas UM imposto unificado: o CBS-IBS-IS!"

QUADRO 2

Closeup do CONTRIBUINTE magro, olheiras profundas, segurando um boleto que se desenrola como pergaminho medieval até o chão. Ele lê com lupa. Em letras minúsculas no boleto: "*acrescido de adicional e

CONTRIBUINTE: "Mas... são seis impostos." BUROCRATA: "É UM imposto. Com seis nomes. É diferente."

QUADRO 3

O ESTADO, agora no escritório, tirando a capa e vestindo um avental de açougueiro. Sobre uma mesa de madeira manchada, um porquinho-cofre amarrado representando o CONTRIBUINTE. A INFLACAO surge ao lad

INFLACAO: "Querido, e a alíquota final?" ESTADO: "Calma. A gente define depois. Por enquanto coloca 28%. Se reclamarem, sobe pra 30%."

QUADRO 4

O CONTRIBUINTE sentado na calçada, bolsos virados do avesso, segurando uma calculadora quebrada. Ao lado dele, uma criança pergunta algo. Acima, o céu cinzento com um outdoor luminoso onde lê-se: "ECO

CRIANÇA: "Pai, o que é simplificar?" CONTRIBUINTE: "É quando trocam seis correntes por uma só. Mas soldada no pescoço."

Anunciaram a maior reforma tributária da história com a promessa sagrada de simplificar a vida do brasileiro. Trocaram a sopa de letrinhas antiga por uma sopa de letrinhas nova, jogaram glitter por cima e chamaram de modernização. A alíquota de referência, claro, ficou para depois. Sempre fica. Porque o segredo da mágica é nunca deixar você ver o coelho saindo da cartola até ele já estar no seu bolso, comendo o que sobrou do salário.

Follow the money: o tamanho do Estado não diminuiu um centímetro. Não houve corte de gasto, não houve enxugamento de máquina, não houve pedido de desculpas pelos trilhões já queimados. Houve apenas um rebatismo. O que antes se chamava ICMS, ISS, PIS e COFINS agora se chama por uma sigla nova e tem três adicionais regionais, um imposto seletivo sobre o que o Soberano achar feio, e um sistema de "split payment" onde o dinheiro nem chega na sua conta antes de ser sequestrado. Simplificaram para o fisco. Para você, complicaram com elegância.

Toda vez que ouvir a palavra simplificação saindo da boca da Besta, conte os dedos depois do aperto de mão. Toda vez que prometerem neutralidade da carga, lembre que carga neutra significa "ninguém paga menos". E toda vez que disserem que a alíquota final será definida depois, saiba que ela já foi definida: é o máximo que conseguirem extrair sem provocar revolta nas ruas. O imposto unificado é apenas a velha corrente com elo novo. Mais brilhante, mais polido, e agora soldado no pescoço para que você não precise mais se preocupar em tirá-la.

A análise e opinião são do O Algoz.