Salao palaciano dourado, lustres de cristal. O ESTADO está sobre um pulpito, capa vermelha esvoaçante, sorriso largo mostrando dentes amarelos. Atrás dele, um exército de BUROCRATAS clones de terno ci
O ESTADO: "Cidadãos! Acabamos com a confusão de PIS, COFINS, ICMS, ISS, IPI! Agora é tudo UM imposto só!"
O CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, camisa puida, está em casa olhando o boleto recém-chegado pelo correio. Seus olhos arregalam. O papel é tão comprido que se desenrola pelo chão, sai pela por
CONTRIBUINTE (sussurrando): "Mas... era pra ser só UM..."
De volta ao palácio. O ESTADO está sentado num trono de papelada, brincando com uma calculadora gigante. Ao lado, A INFLAÇÃO sussurra no ouvido dele, mão pousada em seu ombro. Atrás, um BUROCRATA most
BUROCRATA 1: "Soberano, o regulamento do imposto único tem só 4.872 páginas!"
PUNCHLINE. O CONTRIBUINTE está na fila do açougue, segurando uma cédula amassada. Olha para o açougueiro, que aponta para uma plaquinha onde se lê "1 ovo — R$ 18,00". Atrás do balcão, escondido na som
CONTRIBUINTE: "Simplificaram tanto que agora eu trabalho de janeiro a dezembro pra pagar imposto. E em janeiro recomeça. Pelo menos é simples de entender."
Toda vez que O Estado promete simplificar, é hora de esconder a carteira, o cofre e a sanidade. Em 2026, o Brasil acordou com o tal "Imposto Único" — um nome poético para uma criatura mitológica de três cabeças que devora o salário antes mesmo de ele cair na conta. Prometeram fim da complexidade; entregaram milhares de páginas de regulamentação, decretos, ajustes setoriais e exceções negociadas a portas fechadas. O "único" virou plural antes da tinta secar.
O truque é sempre o mesmo: follow the money. Cada vez que reformam o sistema tributário, a carga total nunca diminui — ela apenas troca de roupa. Saem cinco impostos, entram três com nomes novos e alíquotas maiores. O cidadão é convidado a celebrar a "modernização" enquanto entrega 47% do que produz para uma máquina que, em troca, devolve filas no SUS, escola que não alfabetiza e estradas com cratera. A genialidade do esquema é fazer o pagador aplaudir o próprio enforcamento, desde que o cadafalso venha com infográfico colorido.
Enquanto isso, A Inflação termina o serviço sujo. O que o imposto não leva, ela derrete. O ovo a dezoito reais não é acidente de mercado — é consequência matemática de uma máquina que imprime moeda para pagar a si mesma e cobra o ajuste no caixa do supermercado. O Contribuinte trabalha o ano inteiro para sustentar a festa, e quando reclama, chamam ele de egoísta por não querer "contribuir mais". A análise e opinião são do O Algoz.