Salão dourado, lustres de cristal pingando moedas. O ESTADO, gordo e suado dentro do terno escuro, capa vermelha arrastando no chão, sobe num palanque decorado com a faixa "REFORMA TRIBUTÁRIA — AGORA
O ESTADO: "Cidadãos! Chega de complicação! A partir de hoje, em vez de OITENTA impostos confusos... vocês terão UM imposto LINDO, UNIFICADO e TRANSPARENTE!"
O CONTRIBUINTE, magro, olheiras roxas, camiseta puída, está sentado numa cadeira de plástico segurando um boleto. Ele esboça, pela primeira vez em anos, um meio sorriso de esperança. Um raio de luz di
O CONTRIBUINTE: "Espera... então vai ser mais barato? Sério mesmo? Pela primeira vez na história?"
Close no ESTADO em contrapicado, sorriso largo de tubarão, dentes amarelados, olhos brilhando como caixas registradoras. A INFLACAO surge atrás dele, vestido vermelho colado, deslizando elegante, derr
O ESTADO: "Mais barato?? KKKKK que fofo. Vai ser mais EFICIENTE. Pra mim arrecadar. Agora num boleto SÓ, com QR Code, parcelado em 36x no Pix automático do seu salário!"
O CONTRIBUINTE está agora sem camiseta, sem sapato, sem cadeira, sentado no chão de um cômodo vazio. Segura um único boleto gigante que vai do chão ao teto, escrito "IMPOSTO ÚNICO™ — SIMPLES ASSIM". P
O CONTRIBUINTE: "Eles juntaram oitenta facas numa só. E chamaram isso de avanço civilizatório."
Toda vez que o Leviatã anuncia que vai "simplificar" alguma coisa, o cidadão deveria automaticamente trancar a porta, esconder a carteira e desconfiar do sorriso. A reforma tributária vendida como salvação nacional não reduziu um centavo da carga, não devolveu um real ao bolso de ninguém, não cortou um único burocrata do organograma. Apenas reorganizou a forma de extrair. É como trocar uma sanguessuga por uma seringa automática: dói menos no momento, mas tira o mesmo sangue, no mesmo ritmo, com mais precisão cirúrgica.
O truque é antigo e funciona porque o público adora ouvir a palavra "unificação". Unificar impostos soa moderno, europeu, civilizado. Só que ninguém une tributos pra cobrar menos. Une-se para cobrar melhor, fechar brechas, automatizar a mordida e blindar a alíquota dentro de um emaranhado de leis complementares que nenhum mortal lerá. Enquanto isso, surgem "comitês gestores", "conselhos federativos" e "regimes específicos" — eufemismos chiques para mais cargos, mais salários, mais carimbos, mais Estado. Follow the money: a conta saiu do bolso do empreendedor e foi parar, como sempre, no contracheque de quem nunca produziu nada além de portaria.
No fim, a única coisa verdadeiramente simplificada foi a narrativa: agora o cidadão tem um inimigo só pra odiar, em vez de oitenta. E o Estado adora isso, porque um inimigo concentrado é mais fácil de defender no horário eleitoral. A análise e opinião são do O Algoz.
