O Imposto do Ar Puro: Respirar Agora É Fato Gerador
QUADRO 1

Sala escura e abobadada do Palácio do Leviatã. O ESTADO, obeso, de terno preto e capa vermelha esfarrapada, está sentado num trono feito de guias de recolhimento. Olhos brilham em verde-cifrão enquant

O ESTADO: "Burocrata 4.728... ainda existe algo neste país que o contribuinte faça de graça?"

QUADRO 2

Close no rosto do ESTADO, sorriso maquiavélico abrindo de orelha a orelha, dentes amarelos de ouro tributário. Um filete de baba escorre. Ao fundo, A INFLAÇÃO surge sensual atrás do trono, vestido ver

O ESTADO: "Respirar... DE GRAÇA?! Isso é sonegação pulmonar!"

QUADRO 3

Rua comum. O CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, camisa surrada, está parado diante de um totem giratório verde recém-instalado na calçada, escrito "MEDIDOR PULMONAR FEDERAL - LEI 14.999/26". Um

BUROCRATA: "Sopre aqui, cidadão. São R$ 47,80 pelas últimas 24 horas. Aceita Pix?"

QUADRO 4

PUNCHLINE. O CONTRIBUINTE, agora com o rosto enfiado num saco plástico amarrado no pescoço, calmamente paga a maquininha. Atrás dele, uma fila quilométrica de cidadãos asfixiados faz o mesmo. O ESTADO

CONTRIBUINTE (pensando, sufocando feliz): "Pela primeira vez em 40 anos... o ar que eu consumo é só meu."

Toda vez que o orçamento da Besta não fecha, e ele nunca fecha, a solução é sempre a mesma: encontrar um novo verbo no dicionário e transformá-lo em fato gerador. Já tributaram o trabalhar, o comprar, o vender, o herdar, o doar, o poupar, o investir, o existir como pessoa jurídica e o existir como pessoa física. Faltava pouco. A criatividade do Leviatã é inversamente proporcional à sua competência: para gastar mal os trilhões que já arranca, ele precisa arrancar mais.

A desculpa do momento é sempre nobre. Ontem foi a saúde pública, hoje é o clima, amanhã será a "justiça algorítmica" ou qualquer outra abstração inauditável. Mas follow the money: nenhuma dessas cruzadas jamais reduziu o tamanho do governo, demitiu um burocrata sequer ou plantou uma única árvore que o cidadão comum não pudesse plantar sozinho no quintal por um décimo do custo. O dinheiro entra pelo CNPJ da virtude e sai pela porta dos fundos do compadrio.

O contribuinte brasileiro já trabalha cinco meses por ano só para sustentar a fantasia. Quando o sexto mês chegar, e ele chegará, restará a velha pergunta que ninguém em Brasília quer ouvir: se até o ar que entra nos meus pulmões pertence ao Estado, o que exatamente sobrou de meu? A análise e opinião são do O Algoz.