O Imposto do Ar Que Você Respira (CBS+)
QUADRO 1

Plenário grandioso, iluminação dourada artificial, bandeiras douradas com cifrões. O ESTADO está em pé num púlpito alto, gordo, terno preto risca de giz, capa vermelha esvoaçante mesmo sem vento, olho

O ESTADO: "Cidadãos! A ciência confirma: respirar emite CO2! A partir de hoje, instituo a CBS+, a Contribuição sobre Bem-Estar Sustentável! Cobrada por inalação!"

QUADRO 2

Sala apertada de uma casa simples. O CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, camiseta surrada com a estampa desbotada "EU PAGO LOGO EXISTO", está sentado à mesa olhando uma fatura imensa que se desen

O CONTRIBUINTE: "Eu juro que tentei segurar o fôlego o mês inteiro..."

QUADRO 3

Rua. Um EMPREENDEDOR de avental e olheiras, dono de uma padaria com placa "FECHADO POR REGULAÇÃO", está sendo abordado por três BUROCRATAS clones idênticos. Um carimba o peito do empreendedor, outro l

BUROCRATA 1: "Suspiro de indignação detectado. Multa em dobro." / O EMPREENDEDOR: "Eu nem abri a boca!" / BUROCRATA 2: "Pensar em reclamar também emite. Parágrafo 12, alínea 'C'."

QUADRO 4

Close no rosto do CONTRIBUINTE, agora sozinho, em silêncio absoluto. Ele olha para a câmera, exausto, mas com aquele meio sorriso de quem entendeu o jogo. Atrás dele, sutil, uma pichação fresca na par

O CONTRIBUINTE (pensando, com a boca fechada): "Engraçado. A única coisa que ainda é minha... é o que eu não solto."

Toda vez que o orçamento não fecha, surge uma nova sigla. CBS, CBS+, CIDE, COFINS, contribuição sobre o que sobrou da contribuição anterior. O nome muda, a engenharia é a mesma: empacotar confisco com palavra bonita. Hoje é "sustentável", ontem foi "social", amanhã será "estratégica". A função é única — transferir o que está no seu bolso para o cofre que nunca enche. Follow the money: ele nunca vai parar no hospital, nunca vai parar na escola, nunca vai parar no asfalto. Vai parar exatamente onde sempre parou.

O detalhe sinistro é que a desculpa virou ilimitada. Quando se taxa "bem-estar", "clima", "futuro" ou "consciência", não há fronteira lógica para parar. Tudo emite, tudo polui, tudo precisa ser compensado — leia-se: tudo pode ser cobrado. E o cidadão, que já paga imposto sobre o que ganha, sobre o que gasta, sobre o que economiza, sobre o que herda e sobre o que doa, agora descobre que existe uma alíquota também para o ato involuntário de continuar vivo. A regulação que diz proteger é exatamente a corda no pescoço.

Sobra ao Contribuinte a última fronteira: o silêncio, a recusa, o suspiro guardado. Enquanto houver um pulmão que se recusa a financiar a própria asfixia, o Leviatã engasga. A liberdade, no fim, não é um direito concedido por decreto — é o ar que você decide não devolver. A análise e opinião são do O Algoz.