O Imposto do Ar que Você Respira (DAS-RESPIRA)
QUADRO 1

Salão dourado de mármore, púlpito gigante. O ESTADO, obeso de terno preto e capa vermelha esvoaçante, olhos amarelos brilhando, segura um pergaminho timbrado. Atrás dele, um exército de BUROCRATAS clo

O ESTADO: "Cidadãos! Diante da emergência climática, instituo a CIDE-RESPIRA: 0,7% sobre cada inspiração. Pelo planeta!"

QUADRO 2

Escritório apertado. O CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, camisa amassada, encara um aplicativo no celular chamado "Receita Pulmonar". Tela mostra: "Você respirou 17.482 vezes hoje. Débito autom

BUROCRATA: "O senhor suspirou três vezes a mais. Multa por evasão respiratória."

QUADRO 3

O ESTADO em rede nacional, sorriso largo, dentes de ouro. Holograma atrás mostra gráficos subindo. O EMPREENDEDOR, ao fundo, segurando uma máscara de mergulho improvisada, tenta prender a respiração a

O ESTADO: "A arrecadação será 100% destinada a estudos sobre como respirar melhor. Confiem no processo!"

QUADRO 4

Madrugada. O CONTRIBUINTE, deitado na cama, olha para o teto com expressão exausta mas serena. Pelo vidro da janela, lua cheia. Sobre o criado-mudo: conta de luz, IPTU, DAS-RESPIRA, e um bilhete escri

O CONTRIBUINTE (sussurrando, olhos fechados): "Tudo bem. Quando eu parar de respirar de vez, vocês finalmente vão ter que trabalhar."

O Brasil de 2026 atravessa mais uma "reforma tributária ambiental" que, como toda novidade fiscal das últimas décadas, nasce com a promessa de simplificar e termina criando três tributos onde antes havia um. A retórica mudou — agora é verde, sustentável, planetária — mas o mecanismo é o mesmo de sempre: achar uma justificativa moral nova para tirar dinheiro de quem produz e entregar a quem legisla.

Repare no padrão. Toda crise vira pretexto para um imposto novo, e nenhum imposto, uma vez criado, é extinto. O CPMF "provisório" virou eterno em espírito. A CIDE-Combustíveis financia tudo, menos combustível. A taxa de iluminação pública ilumina principalmente o caixa da prefeitura. Agora dizem que o ar precisa ser tributado para ser salvo — mas o ar não está em crise: o orçamento é que está. Follow the money: cada centavo arrecadado em nome do clima passa por um exército de intermediários antes de chegar a qualquer árvore plantada, e milagrosamente nunca chega.

O contribuinte brasileiro já trabalha cinco meses por ano só para pagar a Besta. Quando o Estado descobrir como cobrar pelo oxigênio, será apenas a formalização contábil de algo que ele já faz há tempos: cobrar pelo simples ato de existir dentro das fronteiras que ele mesmo desenhou. A boa notícia é que, no fim, há um limite biológico para a extração. A má é que ele descobre esse limite tarde demais. A análise e opinião são do O Algoz.