Plenário sombrio. O ESTADO, obeso, de terno escuro e capa vermelha esvoaçante, ergue um pergaminho dourado sob um holofote teatral. Atrás dele, fileiras de BUROCRATAS clones de terno cinza batem carim
O ESTADO: "Cidadãos! O ar que vocês respiram custa caro ao planeta. A partir de hoje, cada inspiração urbana será tributada em 0,7% do salário mínimo por metro cúbico!"
Cozinha apertada, luz amarelada. O CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, camisa amassada, segura um boleto gigantesco que se desenrola pelo chão como papel higiênico. Ao lado, uma geladeira quase v
CONTRIBUINTE: "Trezentos reais... só de respirar em abril?" INFLACAO: "Querido, isso é o valor de ontem. Respira de novo pra ver."
Guichê kafkiano. Fila infinita se perde no horizonte sob luzes fluorescentes. Placa acima: "ADESÃO AR PREMIUM - SEM FILA DE OXIGÊNIO". Um BUROCRATA de óculos redondos empurra um formulário de 48 págin
BUROCRATA: "Plano Básico: respira três vezes por minuto. Plano Premium: respira à vontade, mas assina termo de fidelidade de 36 meses."
Rua escura. O CONTRIBUINTE, sozinho sob um poste, segura o boleto amassado e olha direto para o leitor com um sorriso cansado e sarcástico. Ao fundo, outdoor luminoso do Estado: "RESPIRE COM RESPONSAB
CONTRIBUINTE: "Engraçado. Eles taxam até o suspiro, e ainda acham que o problema sou eu que reclamo sem fôlego."
Toda vez que o orçamento não fecha, e ele nunca fecha, surge uma nova criatividade tributária vestida de virtude. Hoje é o ar, ontem foi a sacola plástica, amanhã será o silêncio. O script é sempre idêntico: inventa-se uma urgência planetária, moral ou sanitária, e por trás dela desce a guilhotina fiscal sobre quem produz, trabalha e respira. O discurso muda de roupa, a mão que entra no bolso é a mesma.
Repare no truque: o Leviatã nunca corta o próprio pescoço. Não se fala em reduzir gabinete, em fechar estatal deficitária, em devolver privilégio de casta. Fala-se em compensar, contribuir, solidarizar, sempre com o dinheiro alheio. É a velha alquimia: transformar a culpa do governo em dívida do cidadão. Follow the money, e você sempre encontrará o mesmo endereço ao final do labirinto: um palácio, uma assessoria inflada, uma frota blindada.
O mais perverso é que a besta já não precisa mais nos convencer. Ela apenas anuncia, carimba e cobra. E ainda exige gratidão por nos permitir existir dentro do cercado que ela mesma construiu com o nosso suor. A análise e opinião são do O Algoz.
