QUADRO 1

Sala de despacho gigantesca, lustres dourados, cortinas vermelhas. O ESTADO esta sentado numa poltrona que mais parece um trono, barriga estourando os botoes do terno, capa vermelha caindo pelas costa

O ESTADO: "Senhores, a meta fiscal nao fechou. Precisamos de uma nova base de arrecadacao. Algo... universal."

QUADRO 2

Close no rosto do ESTADO sorrindo de orelha a orelha, dentes amarelos, gota de saliva descendo. Ao fundo, projecao holografica de pulmoes humanos com um cifrao no meio. A INFLACAO aplaude lentamente,

O ESTADO: "Apresento-lhes... o TAS. Tributo Atmosferico Solidario. Cinco centavos por inspiracao. Sete por expiracao."

QUADRO 3

Rua de bairro popular, ceu cinzento. O CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, camisa surrada, esta parado numa fila imensa em frente a um guiche da "RECEITA RESPIRATORIA". Acima do guiche, um cartaz

EMPREENDEDOR: "Fechei a oficina. Trabalhar exige respirar. Nao da mais conta."

QUADRO 4

Mesma rua, agora a noite. O ESTADO chega numa limusine blindada, capa vermelha esvoacante, escoltado por BUROCRATAS, vindo cobrar pessoalmente os inadimplentes. Encontra o CONTRIBUINTE deitado no meio

O ESTADO: "Levante-se, verme! Voce esta me devendo a respiracao do ano inteiro!"

O fato gerador deixou de ser a renda, o consumo ou o patrimonio ha muito tempo. Hoje o fato gerador e simplesmente existir dentro do territorio. Cada gesto cotidiano ja foi catalogado, fatiado e precificado por uma maquina que nao produz absolutamente nada, mas cobra por tudo. Quando o orcamento nao fecha, a resposta nunca e cortar a gordura do Leviata. A resposta e descobrir um novo orificio do contribuinte por onde enfiar a mao.

O truque e velho e sempre funciona: dao ao novo confisco um nome bonito, um adjetivo emocional, de preferencia "solidario", "emergencial" ou "verde", e pronto, o roubo vira virtude civica. Quem reclama e egoista. Quem foge e criminoso. Quem morre e estatistica. Enquanto isso, a frota oficial nao para, o auxilio palaciano nao reduz, o salario do andar de cima continua corrigido pela inflacao que eles mesmos fabricam para corroer o salario do andar de baixo. Follow the money: ele nunca sai do cofre, so muda de gaveta.

O cidadao chegou ao ponto em que parar de respirar parece um plano financeiro razoavel. Esse e o veredito moral mais demolidor possivel sobre qualquer regime: quando o custo de viver sob ele supera o custo de simplesmente nao viver mais, o jogo acabou para o Estado, mesmo que ele ainda nao tenha percebido. A ultima palavra do contribuinte raramente e um grito. Costuma ser um silencio. A análise e opinião são do O Algoz.