QUADRO 1

Sala do trono do Leviatã. O ESTADO, gordo e suado, capa vermelha esvoaçante, está debruçado sobre um painel gigante de monitores mostrando milhões de transações Pix piscando como vagalumes. Seus olhos

ESTADO: "Senhores... o povo está movimentando dinheiro... de GRAÇA... a qualquer HORA do dia..."

QUADRO 2

Close no ESTADO erguendo um documento gigante com selo dourado. A INFLAÇÃO, de vestido vermelho colado, sussurra no ouvido dele com um sorriso maquiavélico. No documento se lê "TAXA DE CONVENIÊNCIA HO

INFLACAO: "Querido... se eles usam à noite, é porque é luxo... cobre como luxo."

QUADRO 3

Cozinha humilde, 23h da noite. O CONTRIBUINTE, magro, olheiras profundas, camiseta regata furada, está no celular tentando pagar a conta de luz que vence à meia-noite. A tela do celular mostra: "Pix R

CONTRIBUINTE: "Eu só queria pagar a luz antes que cortassem..."

QUADRO 4

O CONTRIBUINTE de pé no meio da cozinha escura, pois a luz foi cortada exatamente à meia-noite. Ele segura o celular iluminando o próprio rosto, com um meio sorriso amargo. Pela janela, ao fundo, vê-s

BUROCRATA: "Multa por uso de celular sem energia regularizada. São mais R$ 89,00. Pix?"

O Pix nasceu como o raro acidente em que algo funcionou apesar do Estado, não por causa dele. Transferência instantânea, gratuita, 24 horas. Foi exatamente esse o pecado original: alguém, em algum andar de Brasília, percebeu que existia um fluxo de trilhões passando pelos dedos sem ser ordenhado. E quando a Besta vê leite, ela inventa o balde, a taxa do balde, a licença do balde e a contribuição obrigatória para o sindicato dos baldes.

O argumento será sempre o mesmo travestido de novo: "é para combater fraude", "é para modernizar", "é para proteger o cidadão". Traduzindo do dialeto oficial para o português: é para arrecadar. Toda vez que o Soberano abre a boca dizendo que vai te proteger, conte os dedos depois do aperto de mão. A regra de ouro nunca falha: siga o dinheiro. E o dinheiro, neste país, segue sempre na mesma direção, num caminho de mão única que termina num cofre que ninguém audita.

O contribuinte brasileiro já paga imposto para nascer, para trabalhar, para comer, para morrer e agora para transferir os trocados que sobraram depois de pagar os outros impostos. A genialidade perversa do Leviatã moderno é cobrar pedágio até no ar que você expira como CO2 regulado. Resta ao cidadão a única liberdade que ainda não conseguiram tributar: rir na cara da Besta enquanto ela engorda. Por enquanto.

A análise e opinião são do O Algoz.