A fantasia de uma moeda digital programável, vendida como modernização e combate à sonegação, é na verdade a consagração do sonho mais antigo do Leviatã: saber onde, quando e em quê cada centavo do seu suor é gasto, com o poder de dizer não. Quando o dinheiro deixa de ser portador ao portador e passa a ser uma licença revogável concedida pelo Soberano, a liberdade econômica vira um favor burocrático. E favor, todo mundo sabe, se cobra depois.

Follow the money: quem ganha com isso não é a dona de casa que paga o pão mais caro todo mês, nem o pequeno comerciante que já sangra em tributo sobre tributo. Ganha o aparelho que cresce vigiando, o banco central que imprime sem freio, o regulador que inventa categorias de "cidadão de risco" para justificar o próximo cargo. Cada transação rastreada é uma corrente a mais no tornozelo de quem produz, e uma medalha a mais no peito de quem só carimba.

A pergunta que o bom súdito deveria se fazer não é "o que posso comprar com a moeda oficial?", mas "por que preciso de permissão para comprar?". Enquanto a Besta debate o teor calórico do seu almoço, o mercado paralelo, o ouro de avó, a prata de bolso e qualquer coisa que o dedo do fiscal não alcance voltam a ser o último refúgio do homem livre. O Estado venceu a manchete. O Contribuinte venceu o estômago.

A análise e opinião são do O Algoz.