Duzentos e um por cento de lucro. É a manchete que rodou os terminais nesta semana, embalada no verniz mágico de sempre: inteligência artificial escolheu, inteligência artificial acertou, inteligência artificial continua acertando. O leitor médio lê isso, sente aquele frio na barriga do apostador que perdeu o último trem, e clica. E é exatamente esse clique, e não o retorno da carteira, que sustenta o modelo inteiro. Porque a primeira pergunta honesta que ninguém faz é a mais simples: se o algoritmo é tão bom, por que o dono dele não está numa ilha grega vivendo do próprio milagre em vez de vender newsletter?

Existe um truque velho como as tulipas holandesas, e ele funciona assim. Você seleciona, depois do fato consumado, as ações que subiram. Chama isso de "seleção por IA". Publica o retrospecto em forma de previsão. E colhe o assinante que confunde sorte passada com competência futura. Ninguém mostra a lista das cem escolhas anteriores que viraram pó, ninguém mostra a carteira paralela que perdeu 40% no mesmo período, ninguém mostra o survivorship bias operando à luz do dia. Mostra-se o vencedor, esconde-se o cemitério, e o incauto acha que descobriu a pedra filosofal quando na verdade encontrou o cassino com iluminação melhor.

Quer dizer, o setor de tecnologia americano subiu porque juro real caiu, porque liquidez global voltou a inundar ativos de risco, porque o mercado precificou corte de juros do Fed e porque um punhado de gigantes de semicondutor concentrou o ganho do índice inteiro. Não foi o algoritmo que fez as ações subirem. Foram as ações que fizeram o algoritmo parecer gênio. Inverter causa e efeito é o esporte nacional das casas de análise, e a IA virou o novo carimbo místico que substitui a antiga aura do "guru com terno". Antes era o senhor de cabelo grisalho na CNBC. Agora é o modelo que ninguém audita, treinado em dados que ninguém vê, com métricas que ninguém replica.

Siga o dinheiro e o encanto se dissolve. Quem ganha com o hype não é o assinante, é a corretora que cobra corretagem, a plataforma que cobra assinatura, o influenciador que cobra afiliado, o fundo que já estava comprado antes da recomendação sair e que agora tem liquidez fresca dos retardatários para descarregar posição. É o esquema clássico da pirâmide informacional, onde o primeiro a saber vende para o segundo, que vende para o terceiro, e o último da fila fica segurando o papel quando a música para. A diferença de 2026 pra 1720 é que agora chamam de aprendizado de máquina em vez de bolha do Mississippi. O nome mudou, a psicologia é idêntica.

E tem a parte que ninguém quer ouvir, que é a do custo invisível. Cada real que corre atrás dessa promessa é um real que deixou de ir pro pequeno negócio do bairro, pra reforma da casa, pra reserva de emergência, pro filho estudar. O ganho de duzentos por cento aparece na tela; o prejuízo dos que entraram no topo do ciclo anterior, esse não aparece em manchete nenhuma. Foi silenciosamente absorvido, engolido pela estatística agregada, sepultado na página quatro do caderno de economia quando a próxima moda chegou. E a próxima chega sempre, porque a fábrica de fé em atalho é a indústria mais lucrativa do capitalismo financeiro moderno.

Então fica o recado, sem cerimônia. Algoritmo não revoga a natureza humana, não revoga o ciclo econômico, não revoga o fato de que retorno acima da média exige risco acima da média e que a maior parte dos que prometem o primeiro estão escondendo o segundo. Se a inteligência artificial fosse mesmo o oráculo que vendem, ela não estaria numa manchete de portal grátis. Estaria trancada num cofre, gerando dinheiro em silêncio, para quem a construiu. O barulho é o produto. A carteira do leitor é a matéria-prima.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.