Vinte e sete países correram ao Banco Mundial pedindo socorro emergencial sob o pretexto do conflito no Oriente Médio, e a cena tem aquele charme inconfundível das tragédias previsíveis. Não foi um país, nem cinco, foram vinte e sete governos descobrindo na mesma semana que estavam quebrados e que a culpa, convenientemente, é de bombas caindo a milhares de quilômetros de distância. Quer dizer, a inflação que corroía suas moedas há anos, o endividamento crônico, as folhas de pagamento inchadas, os subsídios eleitoreiros, nada disso explicava o rombo. Foi o míssil do vizinho do vizinho que quebrou tudo.

Olha, o truque é antigo e funciona porque quase ninguém olha para a engrenagem. O Banco Mundial não tem dinheiro próprio caído do céu; ele se capitaliza com aportes de governos, ou seja, com impostos cobrados de trabalhadores e empresas de dezenas de países, inclusive aqueles que jamais verão um centavo de retorno. O contribuinte brasileiro, mexicano, filipino, sul-africano financia, sem ser consultado, o salvamento de regimes que administraram mal suas próprias finanças e agora descobriram um álibi geopolítico irresistível. É a velha pilhagem legalizada vestida de cooperação internacional.

Me diz uma coisa, quem recebe esse dinheiro de fato? Não é o agricultor pobre da Etiópia, não é a mãe solo de Karachi, não é o desempregado tunisiano. O dinheiro entra pelo topo, passa por ministérios da economia comandados por gente que estudou nos mesmos lugares que os burocratas do Banco Mundial, é distribuído entre consultorias internacionais amigas, empreiteiras contratadas sem licitação séria, ONGs alinhadas e, claro, a folha de pagamento do próprio governo que pediu socorro. O que sobra, e sempre sobra pouco, chega ao destinatário oficial já corroído por câmbio paralelo, taxas e a inflação que o próprio empréstimo vai turbinar nos próximos anos.

O argumento de que essa engrenagem promove estabilidade é uma piada que ninguém mais ri. Há setenta anos esses fundos socorrem os mesmos países, com os mesmos problemas estruturais, governados pelas mesmas elites que aprenderam que quebrar dá prêmio. Quem administra bem o orçamento não recebe nada; quem quebra recebe pacote bilionário com juros subsidiados. É o incentivo perverso elevado a doutrina internacional: punir a prudência e premiar a irresponsabilidade, depois fingir surpresa quando a irresponsabilidade vira regra.

E a parte invisível, a que ninguém calcula, é onde mora o verdadeiro escândalo. Cada dólar emprestado a esses vinte e sete governos é um dólar que não financiou uma fábrica privada, uma pesquisa real, um empreendimento produtivo em algum lugar do mundo. É capital sequestrado da economia produtiva e canalizado para sustentar burocracias falidas, regimes mal administrados e clientelas políticas. O emprego que o socorro supostamente salva é visível nos jornais; os empregos que jamais existirão porque o capital foi confiscado para esse circo permanecem invisíveis, sem rosto, sem manchete, sem comoção.

O conflito no Oriente Médio não criou essa crise, apenas abriu a porta para que ela fosse oficializada com a cara de quem está prestando um favor à humanidade. Sempre haverá uma guerra, uma pandemia, um furacão, um aquecimento, um resfriamento, qualquer coisa que justifique o próximo saque. E enquanto o cidadão comum acha que está testemunhando solidariedade internacional, está apenas vendo o sistema mais antigo do mundo funcionar: alguns poucos vivem às custas de muitos, e chamam isso de civilização.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.