Netanyahu apertou a mão, posou para a foto, anunciou ao mundo que as armas se calariam, e poucos dias depois mandou caças sobre Beirute alegando retaliação a disparos do Hezbollah. Do outro lado, o Hezbollah assinou o mesmo papel sabendo que continuaria atirando quando lhe conviesse. Os dois mentiram em uníssono, e a chamada comunidade internacional aplaudiu o teatro com a solenidade de quem assiste a uma estreia da ópera. Cessar-fogo, na boca de governo, nunca significou parar de matar. Significou reorganizar o calendário dos funerais.

Há uma ingenuidade quase comovente em achar que tratado entre Estados beligerantes vale alguma coisa além do tempo que leva para a tinta secar. O Estado moderno é a única instituição autorizada a quebrar contratos publicamente e ainda assim continuar sendo tratado como autoridade moral. Se um empresário assinasse um acordo comercial e o violasse 72 horas depois, estaria na cadeia, processado, com os bens bloqueados. Quando governo faz, chamam de geopolítica, e analistas de terno aparecem na TV explicando o quanto a situação é complexa. Complexa é a desculpa de quem não quer chamar mentira de mentira.

Vale olhar para o que não aparece na manchete. Cada míssil disparado custa, e o dinheiro não brota da terra. Sai do contribuinte israelense via imposto e inflação, sai do contribuinte americano via pacote de ajuda militar, sai do iraniano via subsídio velado ao Hezbollah. A indústria bélica fatura nos dois lados, os bancos centrais imprimem para cobrir o buraco, e a conta chega na padaria de Tel Aviv, no aluguel de Beirute, na poupança de Ohio. Guerra, no fim, é o mais sofisticado programa de transferência de renda já inventado: do povo de todos os países para o cartel armamentista de uns poucos.

O Hezbollah não é movimento espontâneo de jovens revoltados, é braço armado financiado por um Estado teocrático que usa a causa palestina como fachada para projetar poder regional. Israel não é a democracia angelical que a propaganda vende, é um Estado que aprendeu a manejar o ciclo de retaliação como ferramenta de política doméstica, porque guerra une eleitorado dividido e adia julgamentos incômodos para o primeiro-ministro. Os dois precisam um do outro. Sem inimigo externo, governo precisa entregar resultado interno, e isso é coisa que nenhum dos dois lados sabe fazer.

O cidadão libanês comum, que queria abrir uma padaria, criar os filhos e morrer de velho, não tem voz nessa equação. O israelense que queria plantar uma laranjeira e ver os netos crescerem, também não. Eles são as variáveis que os planejadores em Tel Aviv e Teerã ajustam no tabuleiro, peças móveis num jogo cujas regras foram escritas por quem nunca pegou um fuzil. A liberdade individual, o direito de viver em paz com o vizinho, a propriedade que se constrói com uma vida de trabalho, tudo isso é considerado dano colateral aceitável na contabilidade dos burocratas da guerra.

Cessar-fogo entre dois Estados que vivem de guerra é como acordo de sobriedade entre dois bêbados donos de uma destilaria. Dura o tempo que dura a sede, e a sede sempre volta antes da virtude. Enquanto houver imprensa disposta a transcrever comunicado oficial como se fosse notícia, e plateia disposta a acreditar que dessa vez é diferente, o ciclo se repete. O que se vê é o míssil. O que não se vê é a estrutura inteira de incentivos que torna o míssil inevitável.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.