Um prédio que guarda combustível nuclear gasto pegou fogo depois de ataque russo, a poucos quilômetros do reator que em 1986 envenenou meio continente e até hoje vive embaixo de um caixão de concreto pago pelos contribuintes europeus. A agência internacional de energia atômica, aquela burocracia genebrina que cobra contribuição compulsória dos países membros para emitir relatórios solenes, confirmou os danos e prometeu mandar peritos. Os peritos chegam depois do incêndio, é claro, porque é assim que funciona toda fiscalização estatal: o auditor pousa quando o prejuízo já está contabilizado, escreve um documento bonito, recomenda mais orçamento e volta para casa.
Repare na engenharia moral do episódio. O Estado russo, herdeiro direto da mesma burocracia soviética que projetou o RBMK sem contenção decente, que mentiu sobre a explosão de 1986 por dias, que mandou bombeiro morrer de pé sem dosímetro, é agora o ator que voluntariamente joga míssil em depósito de material radioativo. E o ocidente, que financiou o novo sarcófago com mais de dois bilhões de euros tirados do bolso de gente que nunca pisou na Ucrânia, assiste à obra ser ameaçada por um vizinho que sempre tratou segurança nuclear como instrumento de chantagem geopolítica. A conta da próxima limpeza, se houver, será dividida com quem? Com você, naturalmente, via tratado multilateral que ninguém leu.
Quer dizer, paga-se uma fortuna anual para sustentar uma agência que existe oficialmente para impedir exatamente este cenário. Reator perto de zona de combate, depósito de combustível irradiado a tiro de drone, militares com acesso a instalação contaminada. Pois bem, a agência não impediu nada em 2022, quando os russos ocuparam a própria Chernobyl e levantaram poeira radioativa dirigindo blindado em cima da Floresta Vermelha. Não impediu em Zaporíjia, onde até hoje há equipamento militar russo dentro do perímetro da maior usina da Europa. E não vai impedir agora. A função real do órgão internacional não é prevenir acidente, é legitimar a próxima rodada de negociação entre Estados que se acham donos do átomo.
Olha, a lição que ninguém quer aprender é simples e desconfortável. Energia nuclear civil é uma das tecnologias mais seguras já criadas pela engenharia humana, mais segura por terawatt do que carvão, gás e até hidrelétrica. O perigo nunca foi o átomo, foi o monopólio estatal sobre o átomo. Foi o burocrata soviético que apertou o botão do teste maluco em 1986 sem entender o reator que ele mesmo administrava. É o burocrata russo que hoje calcula friamente que ameaçar um depósito de combustível gasto vale alguns pontos na mesa de negociação. E é o burocrata da agência que confunde missão técnica com palco diplomático. Tire o monopólio estatal da equação e o risco residual cai a níveis de seguradora privada, porque mercado segurador não brinca com cauda de probabilidade que arruína balanço.
Me diz uma coisa, se um operador privado deixasse depósito de material irradiado vulnerável a ataque por três anos seguidos, quanto tempo levaria para os mesmos jornalistas que hoje escrevem o factual mornaço pedirem cassação de licença, prisão de executivo e nacionalização do setor? Quando é Estado contra Estado, no entanto, a notícia vira nota de pé de página, a indignação é diplomática, a fatura é socializada e a culpa evapora num comunicado em três idiomas. O cidadão ucraniano que mora no raio de contaminação não vota na agência, não escolhe o ministro russo da defesa, não aprovou o orçamento europeu que reconstruiu o sarcófago. Ele só paga, com saúde, com terra, com vida.
O escândalo verdadeiro de Chernobyl em 2026 não é o incêndio. É a constatação de que quarenta anos depois do maior desastre nuclear da história, a mesma estrutura de poder que causou o primeiro acidente segue armada, segue sentada na cadeira de membro permanente do conselho de segurança e segue tratando reator civil como peça de barganha. A próxima nuvem radioativa, se vier, terá sido produzida pelo mesmo agente da primeira, sob fiscalização das mesmas instituições que falharam em todas as ocasiões anteriores, e financiada pelos mesmos contribuintes de sempre. Quando o pirômano também é o bombeiro e ainda emite o laudo, não há átomo seguro, há apenas tempo até o próximo aviso.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.