A notícia chegou com aquele ar solene de quem espera aplausos: o Estreito de Ormuz voltou a operar normalmente, os navios passam, o petróleo flui, o mundo pode dormir tranquilo. E os mercados, esses oráculos modernos que supostamente refletem a sabedoria coletiva, reagiram com um bocejo. Quer dizer, fizeram pior que bocejar, em alguns pregões o barril caiu enquanto os jornalistas ainda escreviam manchetes sobre o alívio geopolítico. Por que? Porque o mercado é uma máquina de antecipação, não de comemoração tardia, e quem ainda não entendeu isto está condenado a perder dinheiro lendo manchete de véspera.

A primeira razão é a mais elementar e a que ninguém quer encarar: o prêmio de risco já estava no preço havia semanas. Quando os tanqueiros começaram a fazer fila e os seguros marítimos triplicaram, o barril subiu antecipando o pior cenário. Agora que o pior não veio, o preço apenas devolve o que tinha tomado emprestado do medo. Isto não é alta nem baixa, é simples aritmética de expectativa. O sujeito que comprou na esperança da euforia pós-reabertura está descobrindo, com a carteira sangrando, que o mercado não paga duas vezes pela mesma notícia. Olha, isto deveria estar no primeiro capítulo de qualquer manual sério, mas como os manuais foram escritos por quem nunca operou nada, o investidor de varejo continua caindo na armadilha.

A segunda razão é mais incômoda porque expõe a fragilidade de uma economia global que finge estar saudável. A demanda por petróleo está fraca, e está fraca porque a China desacelera, a Europa entrou em estagnação industrial com sotaque alemão, e os Estados Unidos vivem um ciclo de juros altos que sufoca consumo. Reabrir Ormuz não cria demanda, apenas garante oferta, e oferta sem demanda é o cenário perfeito para preço caindo. Os bancos centrais passaram quinze anos inundando o sistema com dinheiro de mentira, fabricando bolhas em todos os ativos imagináveis, e agora que tentam enxugar a piscina descobrem que o consumidor real, aquele de carne e osso que enche tanque de carro, está endividado até o pescoço e não vai salvar trimestre de ninguém.

A terceira razão é a que mais me diverte, porque envolve seguir o dinheiro até onde dói. Quem ganhou com a crise do estreito não foram os produtores árabes nem as petrolíferas americanas, foram os intermediários, os traders de Genebra, os fretadores gregos, as seguradoras de Londres. Foi a indústria do medo, sempre ela, que vive de cobrar prêmio extra toda vez que aparece um míssil hutu no telejornal. Agora que o medo passou, esses senhores precisam de outra crise, e tenha certeza de que estão trabalhando ativamente para fabricá-la, seja em Taiwan, seja no Mar Vermelho, seja num oleoduto siberiano. O capitalismo de compadrio energético precisa de combustível, e o combustível dele é tensão geopolítica permanente.

Some-se a isto um detalhe que os analistas de paletó evitam mencionar: o petróleo deixou de ser o termômetro único da economia global. O mundo está eletrificando matrizes, a China domina lítio, cobalto e terras raras, e o barril perdeu parte do poder de chantagem que tinha em 1973. Reabrir Ormuz importa, sim, mas importa menos do que importaria há vinte anos, e o mercado, que é mais inteligente que qualquer ministro de energia, sabe disto e precifica acordemente. A festa não veio porque a festa já não cabe nesta sala.

Quem espera que reabertura de estreito impulsione mercado está esperando que o passado se repita sem entender que o presente mudou de roupa. A próxima alta do petróleo, quando vier, não virá de notícia boa nem de notícia ruim sobre Ormuz, virá do dia em que os bancos centrais admitirem que perderam o controle da inflação que eles mesmos fabricaram. Até lá, o barril vai oscilar conforme a gripe da economia chinesa e o humor do investidor americano endividado. Estreito aberto ou fechado é detalhe operacional, não destino histórico.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.