Vinte por cento dos fluxos globais de dados passam pelo Estreito de Ormuz. Leu direito. Aquele mesmo pedacinho de mar que aparece nos noticiários quando o preço do barril sobe não carrega apenas hidrocarboneto, carrega também o e-mail do seu chefe, a transferência interbancária do seu salário, o vídeo que a sua filha está assistindo no celular e os pacotes criptografados que sustentam metade do comércio digital entre Ásia, Europa e África. Cabo submarino, gente. Fibra ótica deitada no fundo do oceano, exatamente debaixo da quilha dos petroleiros que todo mundo finge vigiar.
O detalhe é cômico de tão sintomático. Décadas de palestra em Davos sobre "economia desmaterializada", "nuvem", "metaverso", e a infraestrutura física dessa fantasia continua sendo um cabo de borracha enterrado num corredor de água com menos de cinquenta quilômetros de largura, ladeado por dois regimes que se odeiam há quarenta anos. Quem comprou a história de que o digital tinha libertado o homem da geografia foi enganado por quem vendia o sonho. A geografia nunca dorme, ela só muda de roupa.
Siga o dinheiro e a piada fica melhor. As mesmas potências que pregam transição energética, descarbonização e "fim da era do petróleo" mantêm frotas militares permanentes naquele estreito porque sabem perfeitamente que fechar Ormuz por uma semana não significa apenas posto de gasolina caro, significa banco travado, bolsa em pane, hospital sem prontuário eletrônico e supermercado sem reposição de estoque. O discurso público diz uma coisa, o orçamento de defesa diz outra. O orçamento nunca mente, ele só esconde a verdade nos rodapés.
E aí entra a parte que ninguém quer enxergar. Quando vinte por cento de qualquer coisa essencial passa por um único ponto, esse ponto deixa de ser geografia e vira poder. Poder concentrado, poder negociável, poder que se vende caro nos bastidores. Cada governo da região, cada empresa de telecom envolvida no consórcio, cada operador militar com base na vizinhança senta numa cadeira que vale fortuna justamente porque o resto do mundo aceitou, em silêncio, depender de um gargalo. A centralização não foi acidente, foi escolha de quem ganha com ela.
O moral da história é antigo e teima em não ser aprendido. Toda vez que a humanidade resolveu colocar todos os ovos numa cesta só, em nome da eficiência, da economia de escala ou do barateamento marginal de centavo, descobriu da pior maneira que resiliência custa caro e fragilidade custa civilização. Os romanos descobriram com as rotas de cereal do Egito, os portugueses descobriram com a especiaria de Malaca, e nós vamos descobrir, mais cedo do que tarde, com a fibra ótica de Ormuz. A diferença é que da próxima vez não vai faltar pimenta, vai faltar PIX.
Enquanto isso, o cidadão segue acreditando que sua vida digital flutua em alguma nuvem etérea, mantida por algoritmos benevolentes de empresas californianas. Não flutua. Está pendurada num cabo de borracha que atravessa um estreito vigiado por porta-aviões, mísseis antinavio e ayatolás de mau humor. O dia em que esse cabo for cortado, ninguém vai discutir cotação do barril, vai discutir como pagar o pão da padaria sem maquininha funcionando. E aí o intelectual de redação vai descobrir, atrasado como sempre, que geografia ainda manda em tudo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.